Entrevistas ao escritor

 

Seguem-se algumas entrevistas realizadas ao escritor francês ao longo da sua vida.

Estas aproximam-nos ao autor de uma forma muito especial.

Ficamos a conhecer detalhes pessoais que jamais saberíamos de outra forma.

 

Em 1889, Nellie Bly, jornalista nova-iorquina do World, propôs-se a bater o recorde de Phileas Fogg, em referência ao livro A volta ao mundo em oitenta dias (escrito por Júlio Verne). O jornal para que trabalhava manteve o suspense do dia-a-dia das crónicas da façanha. Vestida com roupa de homem, gorro, botas e uma pequena mala de viagem, Nellie Bly partiu de Nova York a 14 de Novembro de 1889. Primeiro atravessou o Atlântico, chegou a França onde entrevistou Júlio Verne, passou por África, Índia, Japão, e depois de atravessar o Pacífico entrou no território americano aproximando-se pouco a pouco ao ponto de partida. Por cada cidade que passava, Nellie enviava as suas notas. Os leitores apostavam no dia em que chegaria. Nellie regressou a Nova York a 25 de Janeiro de 1890. Tinham decorrido 72 dias, seis horas e dez minutos. Para a sua proeza tinha-se valido de cavalos, barcos, carruagens e muitos camelos. Bly estabeleceu um novo recorde mundial ao dar a volta ao mundo em tão pouco tempo, mas meses depois, George Francis Train rompeu esta nova marca ao completar a dita viagem em 62 dias.

Elizabeth Cochrane era oriunda de uma localidade na Pensilvânia. Começou sem querer a sua carreira de jornalista ao escrever ao redactor-chefe do Pittsburgh Dispatch para protestar contra um artigo com um conteúdo muito tradicional que se intitulava: «Para que servem as mulheres?». Não há dúvidas que era uma pioneira no terreno do feminismo. Em 1889, com o pseudónimo de Nellie Bly, estava no topo da sua carreira e a ponto de se converter numa celebridade de fama mundial, apesar de apenas ter vinte e dois anos. De insolente beleza e atitudes determinadas, vestia roupas práticas e cómodas e parecia disposta a tudo. Um ano antes havia conseguido ingressar num famoso manicómio situado numa ilha do East River, perto de Manhattan, e passado lá dez dias acumulando informação para o jornal diário nova-iorquino The World de lord Joseph Pulitzer. O resultado dessa estância foi uma serie de artigos contundentes e um livro: Ten Days in a Madhouse (Dez dias num manicómio).

 

Nellie Bly em 1890

 

Tratava-se agora da intrépida jornalista encomendar a Pulitzer uma ambiciosa e agressiva campanha que havia de assegurar ao World (em cujo cabeçalho surgia a seguinte afirmação: «Garantimos que a nossa tiragem é maior que a soma da de todos os jornais americanos») a primeira posição na feroz competição que enfrentava aos jornais diários nova-iorquinos. Para isso Nellie Bly propôs-se a dar a volta ao mundo, com o propósito de que bater o recorde de oitenta dias de Phileas Fogg. «É o grande sonho de Júlio Verne compatível com a realidade?», perguntava o director do World a 14 de Novembro de 1889. O artigo prometia que o jornal ia converter esse sonho em realidade. «Vários milhares de pessoas têm lido com interesse a viagem imaginária que Júlio Verne, esse príncipe dos sonhadores, conseguiu proporcionar à sua personagem, Phileas Fogg.» Ninguém tinha levado a cabo uma proeza assim na vida real e, portanto, «correspondia ao World abrir uma brecha nesse campo, como o tem feito já em tantos outros. Hoje às 9.30h, Nellie Bly, que tão bem conhecem as milhões de pessoas que têm lido os palpitantes relatos onde tem referido pessoalmente as suas proezas, irá se pôr a caminho, como uma autêntica Phileas Fogg do sexo feminino [...].»

Ao narrar a sua aventura, o Phileas Fogg do sexo feminino afirmou que a viagem foi ideia sua. Tinha por costume pensar aos domingos e submeter, no dia seguinte, à aprovação ou à rejeição do seu redactor-chefe as ideias que lhe tinham ocorrido. Antes de lhe falar sobre isso, tinha-se informado numa companhia de navegação e descoberto que se podia cobrir o itinerário em menos de oitenta dias. Inteirou-se logo de que o seu jornal tinha já previsto uma volta ao mundo, mas com um jornalista masculino. O director afirmou que ela não podia realizar essa viagem sem protecção, que levaria muitas malas e que, além disso, apenas falava inglês... Insistia que apenas um homem pode levar a cabo esse desafio. «Muito bem –recordava o que havia respondido, furiosa-. Envie um homem e eu sairei ao mesmo tempo em representação a outro jornal e ganharei.»

Está claro que Nellie saiu. A reportagem foi adoptando infinitas modalidades. Até nos dias em que não chegava nenhum telegrama de Nellie Bly, o World podia falar aos leitores das toneladas de cartas que o jornal recebia -algumas delas eram, inclusive, pedidos de casamento-. Mais tarde, o jornal foi alimentando o suspense com noticias de veículos de caminhos de ferros que se atrasavam e outros transbordos falhados, ou com possíveis naufrágios. Nellie tinha embarcado num navio chamado Augusta Victoria e o jornal referia que outro barco, no que ela deveria estar a viajar, tinha-se atrasado devido a uma tempestade ou que tinha estado a ponto de naufragar. Depois, a 22 de Novembro, a primeira página informou:


 

«NELLIE BLY NO OUTRO LADO. APÓS UMA ACIDENTADA VIAGEM, A GLOBE-TROTTER DO WORLD ENCONTRA-SE HOJE EM SOUTHAMPTON. CONTANDO COM TEMPO SUFICIENTE, VISITARÁ JÚLIO VERNE NA FRANÇA.»

 

A volta ao mundo de Nellie Bly

 

A visita a Júlio Verne foi uma improvisação, ou, pelo menos, é o que conta a lenda. Segundo Nellie Bly, Júlio e Honorine tinham escrito ao correspondente do World em Londres a perguntar se seria possível que a jornalista passasse em Amiens ao cruzar o continente. «Oh! Como eu gostaria de os conhecer!», exclamou esta. Sentia não ter tempo para o fazer. «Se poder aguentar duas noites sem dormir nem descansar, creio que é possível», respondeu o correspondente (um tal Tracey Greaves). Mas, algum tempo depois, o correspondente em Paris desse mesmo jornal, o inglês Robert Sherard, apresentou uma versão mais fidedigna dos acontecimentos. «Pensamos que seria uma boa publicidade para a "história" que a jovem conhecesse Júlio Verne em Amiens enquanto cruzasse França a caminho de Brindisi. Ao princípio, o velho cavalheiro [quer dizer, Júlio Verne] não compreendia onde estava o interesse de semelhante encontro e teve-se que recorrer a uma certa dose de persuasão para conseguir aceder a ele. A tarefa era um tanto mais dificultosa pois estávamos aproveitando a sua amabilidade para os nossos próprios interesses.» Tal foi o espontâneo convite de Júlio Verne! Em qualquer caso, o encontro foi um êxito. «Recorri a muita conversa para despertar o interesse de Verne pelo acontecimento -recorda Sherard- que teve a amabilidade de receber na estação de Amiens com um ramo de flores a jornalista americana.»

«Ao vê-lo -referiu Nellie- senti o mesmo que teria sentido qualquer mulher na mesma situação. Perguntei-me se levaria a cara manchada de fuligem e se estaria despenteada. Disse a mim mesma com uma certa melancolia que se tivesse viajado num veículo de caminho de ferro americano teria podido arranjar-me durante a viagem, para descer do veículo em Amiens e saudar o ilustre escritor e a sua mulher tão asseada e bonita como se os tivesse recebido na minha própria casa.» Verne, por seu lado, está encantado por conhecer «esta jovem e formosa norte-americana», como contou numa carta ao jornal Le Temps. «Miss Bly [...] pareceu-me muito enérgica e muito determinada. Parecia uma jovem perfeitamente capaz de acabar a viagem no prazo previsto.»

Júlio abriu caminho até aos coches que esperavam à frente da estação. Nellie caminhava junto a Honorine, calada pois não falavam o mesmo idioma. «Caía a tarde. Durante o percurso pelas ruas de Amiens, pude ver por breves momentos lojas tentadoras, um parque muito bonito e muitas amas que empurravam carrinhos de bebé», lembra Nellie Bly. O coche de Júlio Verne seguia perto do seu. «Aumentou o passo para se juntar a nós e abriu uma porta que havia no portão», conta. Até mais à frente não tinha reparado no leve coxear do escritor. «Um cão negro e fraco apressou-se a dar-me as boas-vindas. Aproximou-se com um salto, um olhar doce e cheio de afecto. Embora goste de cães e me tenha agradado a forma como este me recebeu, não deixei de ter medo que as suas veementes carícias manchassem a minha dignidade e me fizesse cair de joelhos na casa do célebre francês.» Subiram a escadaria em mármore, cruzaram um «precioso jardim de Inverno, que não estava lotado de flores -comenta a jovem- mas que contava com a quantidade precisa para que se pudesse ver e apreciar a beleza das diferentes plantas», e chegaram a um amplo salão onde Honorine acendeu a lareira «com as suas próprias mãos». A visitante teve então tempo de se fixar no famoso Júlio Verne: «Os cabelos, brancos como a neve, brilhavam num artístico despenteado. Ocultava a parte inferior da cara uma espessa barba, cuja brancura rivalizava com a do cabelo, mas tanto as cores sãs da pele e o luminoso brilho dos olhos negros, velados por espessas sobrancelhas brancas, como a palavra ágil e os gestos animados, mostravam energia, vida e entusiasmo.» Calculava que pudesse medir à volta de um metro e sessenta e cinco de altura.

É evidente que conversaram recorrendo a um intérprete, Sherard. «Esforço-me por me manter informado do que ocorre nos Estados Unidos e agradam-me muito as centenas de cartas que os norte-americanos que lêem os meus livros me enviam –disse-lhe Verne-. Não posso imaginar nada mais tentador que viajar pelo seu país desde Nova York até São Francisco.» Ela descreveu-lhe o seu itinerário que, desde Amiens, a iria levar de novo a Calais para tomar o expresso com destino a Brindisi. Lá, embarcaria rumo a Port-Said, Israel, Suez, Adén, Colombo, Penang, Singapura, Hong Kong, Yokohama, São Francisco e Nova York. «Porque não vai a Bombaim, como o meu personagem Phileas Fogg?», perguntou Verne. «Porque me interessa mais ganhar tempo do que salvar uma jovem viúva», respondeu ela. «Quem sabe se não salva um jovem viúvo antes de regressar», disse Júlio Verne com um sorriso. E ela «sorriu com um sentimento de superioridade, como o farão sempre as mulheres livres de obsessões perante insinuações nesse sentido».

Mas tinha chegado a hora de retomar a viagem. Se perdesse o transporte de Calais, restava-lhe regressar a Nova York, pois perderia uma semana. Todavia, pediu a Júlio Verne que lhe mostrasse rapidamente o seu local de escrita. «Ao ver o resto da casa -recorda-, tinha imaginado que o local de escrita do senhor Verne seria um quarto muito belo. Mas, ao entrar nele, fiquei muda de espanto. Abriu a portada da janela, a única da habitação, e a senhora Verne apressou o passo para nos alcançar e acendeu a lâmpada de gás colocada em cima da lareira.» Que quarto tão pequeno!, pensou, atónita, a jornalista. É quase tão pequeno como o gabinete de minha casa. «Era também um quarto austero e desnudo. Debaixo da janela havia una mesa de trabalho e foi espectacular não ver nela a acostumada desordem que costuma cobrir as mesas dos escritores [...].» Por cima da mesa havia um monte muito ordenado de manuscritos, que Júlio Verne permitiu examinar. Viu que havia palavras riscadas aqui e acolá, mas sem alternativa, o que indicava que introduzia melhorias no seu trabalho suprimindo detalhes supérfluos, que nada acrescentava. Não havia no quarto nada mais que um único assento -o da mesa de trabalho- nem mais mobiliário, além da mesa, cadeira e um baixo sofá. Desde a janela com persiana podia-se ver o bico da catedral. Aos seus pés, estendia-se o parque e, mais longe, abria-se o túnel do caminho-de-ferro.

Passaram, depois, para a enorme biblioteca, forrada de estantes desde o chão até ao tecto. O seu anfitrião mostrou-lhe um mapa que ela reconheceu logo: o itinerário de Phileas Fogg; com um lápis, Verne traçou nesse mapa o da jovem. Esta recordou mais tarde que tinha a intenção de fazer a viagem em setenta e cinco dias. «Se o fizer em setenta e nove, aplaudo-a efusivamente», respondeu. E disse depois em inglês, enquanto brindavam com os copos de vinho: «Boa sorte, Nellie Bly.»

 

Caricatura que representa a entrevista de Nellie Bly

 

Era na verdade uma noite fria. E apesar dos pedidos de Nellie Bly, os Verne acompanharam-na pelo pátio até ao portão. Ao virar-se viu como agitavam a mão para se despedir; «o vento glacial despenteava-lhe o cabelo branco ». Não perdeu os transbordos e foi capaz de «acima de tudo» pegar o correio de Brindisi, como contou no resumo enviado ao seu jornal. E fez, efectivamente, a volta ao mundo em setenta e dois dias, seis horas e onze minutos, apesar dos atrasos horários.
 

Em 26 de Janeiro de 1890, a primeira página do World estava completamente dedicada a Nellie Bly... e a J. Verne. «Bateu-se o recorde. [...] Milhares de pessoas saudaram Nellie Bly até ficarem afónicas. [...] O país inteiro cheio de entusiasmado fervor [...].» Um titulo realçava:
 

«JÚLIO VERNE ENVIA AS SUAS FELICITAÇÕES.»
 

O jornal tinha pedido umas palavras ao «mago de Amiens» e reproduzia agora a sua resposta telegráfica:
 

NUNCA DUVIDEI DO ÊXITO DE NELLIE BLY. A SUA AUDÁCIA TORNAVA-O PREVISÍVEL. HURRA POR ELA E PELO DIRECTOR DO WORLD. ¡HURRA, HURRA!
 

Antes de Nellie Bly chegar a Nova York, Roben Sherard já tinha tomado o caminho de Amiens. Júlio Verne sabia que a jovem tinha desembarcado em São Francisco a 23 de Janeiro como também sabia que, graças às melhorias dos serviços ferroviários, apenas se demoraria cinco dias a cruzar os Estados Unidos. Mas estava confiante que a jornalista encontraria forma de ir ainda mais depressa; e foi o que esta fez, embora tenha de dar um desvio pois encontrou a via-férrea bloqueada pela neve.

«Estou encantada -confiou Honorine a Sherard-, ainda que não seja mais porque por fim o meu marido vai recuperar o sossego. [...] Todas as noites dizia: "Miss Bly deve de estar neste sítio, ou no outro." Costumava ir, ao cair da tarde, buscar o mapa-mundo ou o globo e assinalava-me o lugar em que provavelmente estava Miss Bly naquele momento. Cada dia marcava o seu avanço com bandeirinhas nesse mapa grande aí de cima.» O jornalista citou Verne: «É o que disse a minha mulher: lembrava-me continuamente de Miss Bly. O que mais pensava era: Deus, como eu gostaria de ainda ser livre e jovem! Ficaria encantado em fazer essa viagem, ainda mesmo nestas condições: dar a volta ao mundo a toda a velocidade, sem ver quase nada. Punha-me em marcha sem pensar duas vezes e oferecia-me a Miss Bly para a acompanhar.» E Sherard ouviu o comentário de Honorine: «Eu não teria achado graça nenhuma.»

Perguntando ao escritor se pensava usar Miss Bly em alguma obra, Verne respondeu com simplicidade: «É o mais provável. Embora não dê muito bem com as personagens femininas, vou começar a escrever dentro de nada um livro que se chamará "Lady Franklin" [iria se chamar, na verdade,
Mistress Branican]. Mais tarde, irá me aparecer seguramente uma situação adequada para esse espectáculo tão bonito perante o que me pôs há mais ou menos setenta dias.»

Na já citada primeira página do jornal apareceria o resumo desta agradável conversa com outro título:

 

«VERNE DISSE: BRAVO»

O escritor francês encantado com o êxito da viajante do World
Grande triunfo jornalístico
Verne seguia o trajecto passo a passo nos seus globos terrestres
O seu Phileas Fogg derrotado
Uma apaixonante entrevista com o Mago de Amiens
A senhora Verne expressa-se em felicitações
Afluem de todos os lugares grandes elogios para o The World e seus representantes
Este êxito converteu o World no jornal mais famoso do mundo.

 

Entrevista retirada do site de Cristian Tello e traduzida para português.

 

A entrevista que se segue é uma raridade.

Realizada por R. H. Sherard em 1893 e publicada nos EUA em Janeiro do ano seguinte, permaneceu inédita na França até Outubro de 1990, ao ser publicada na "Magazine Littéraire".

 

Revela um homem no ocaso da vida, adoentado e sem esperança de obter o reconhecimento que sempre desejou na sua pátria, embora tenha, mesmo em vida, obtido uma legião de leitores tanto na Europa como na América. Sobretudo, revela um pouco do processo criativo do grande precursor da moderna FC ocidental, que inspirou muitos leitores e influenciou muita gente na procura de textos de ficção-científica. Nesse ponto é importante notar que Verne não era apaixonado pela ciência, mas por avanços industriais, e principalmente por geografia. Viajar para ele, era a grande aventura. Os seus escritos evidenciam isso, e a sua imaginação criava as condições técnicas para impulsionar a trama, dono de um espírito determinado, detalhista, grande leitor e preocupado em criar um estilo elegante, costumava anotar tudo o que achasse interessante para poder utilizar num conto ou num romance futuros. Essas qualidades tornaram-no num escritor que soube conferir verosimilhança às suas aventuras, que aliada ao ritmo, ao humor e à originalidade dos temas, fizeram de Verne um verdadeiro imortal Mesmo que a Academia Francesa o tenha esnobado, o que costuma acontecer com os autores de fantasia e congéneres. (Finisia Fideli)

"O grande desgosto da minha vida foi jamais ter sido reconhecido na literatura francesa."

Ao pronunciar estas palavras, ele baixou a cabeça e na voz calorosa e jovial soou uma nota de tristeza. "Eu não sou reconhecido na literatura francesa", repetiu. Quem era este senhor idoso que falava assim, cabeça baixa, uma nota de tristeza na voz cordial? Um autor qualquer de folhetins baratos e populares, um homem de letras qualquer que jamais teve escrúpulos em declarar que considera sua pena um instrumento de fabricar dinheiro e que sempre preferiu possuir um lugar de destaque na Academia de Letras, em vez da glória e da honra? Não, por mais estranho e monstruoso que possa parecer, não era outro senão J. Verne. Sim, J. Verne, o vosso e o meu J. Verne, que encantou o mundo inteiro durante anos e continuará encantando através das gerações futuras.

Foi no ambiente agradável da sala de estudos da Sociedade Industrial de Amiens, que o mestre pronunciou estas palavras, com uma tristeza que nunca mais esquecerei. Era como se confessasse uma vida malbaratada, o desgosto de um homem velho, sem retorno. Senti-me penalizado ao ouvi-lo falar assim, e tudo o que pude fazer foi dizer, com entusiasmo sincero que, para mim e para milhões de outros, ele era um grande mestre, objecto da nossa admiração e do nosso respeito incondicional, o romancista que nos encanta muito mais do que qualquer outro. Porém, sacudindo a cabeça grisalha, ele repetiu mais uma vez:

"Eu não sou reconhecido na literatura francesa."

Setenta anos, sempre robusto e vigoroso, deixando de lado o facto de que manca, com uma fisionomia que lembra a de Victor Hugo: como um velho capitão, vida plena e tez colorida. A pálpebra desce ligeiramente, mas o olhar é resoluto e claro, e de toda sua pessoa emana uma impressão de bondade e gentileza que sempre foram as características daquele sobre quem há anos escreveu Hector Malot: "Ele é o melhor dos meus melhores companheiros"; este homem que o frio e reservado Alexandre Dumas ama como a um irmão, e que jamais teve um único inimigo, a despeito de seu brilhante sucesso. Infelizmente tem preocupações quanto à saúde. Nos últimos tempos sua vista diminuiu e há momentos em que é incapaz de escrever, e dias em que uma gastrite o martiriza. Mas continua valente como sempre.

"Escrevi 66 volumes e se Deus me der vida, chegarei a 80".

* * *

J. Veme mora na Av. Longueville em Amiens, esquina da Rua Charles Dubais, numa bela casa espaçosa que aluga. É uma casa de três andares, com três fileiras de cinco janelas que dão para a Av. Longueville, três para a esquina e três outras para a Rua Charles Dubois. As entradas - de carroças e outros - estão nesta rua. As janelas da Av. Longueville dominam a vista magnífica da pitoresca mas brumosa Amiens, com sua catedral e outras construções antigas. Diante da casa, do outro lado da avenida, passa uma linha de caminho-de-ferro numa vala que, justamente em frente do escritório de Verne, desaparece sob um jardim público, onde se ergue um grande quiosque, no qual a fanfarra militar se apresenta quando o tempo está bom. Na minha opinião, tal associação constitui o distintivo do grande escritor: o comboio, com o zumbido e o estrépito do ultra-modernismo, e o romance da música. E não é graças a esta associação da ciência e do industrialismo com tudo o que há de mais romântico na vida, que os romances de Verne possuem uma originalidade que não se encontra em nenhum outro escritor vivo, mesmo entre os que são mais reconhecidos na literatura francesa?

Um alto muro se ergue na Rua Charles Dubois, e oculta aos olhares do transeunte o pátio e o jardim da casa de Verne. Desde o instante em que bati à pequena entrada do lado e que em resposta ao carrilhão a porta se abriu, encontrei-me num pátio calçado. Em frente, a cozinha e as dependências comuns; à esquerda, um belo jardim ornado de árvores; e à direita, a casa, à qual conduzem largos degraus que se estendem pela fachada. Por uma varanda cheia de flores e de palmeiras, a porta de entrada dá ao visitante acesso ao salão. É uma peça ricamente mobilada, com mármores e bronzes, exuberante e rica decoração, poltronas bastante confortáveis - a peça de um homem abastado, que usufrui de jazeres, mas sem ostentação. Tem o ar de ser pouco utilizada, o que, aliás, é verdade. O Sr. e a Sra. Verne são pessoas bastante simples que de maneira nenhuma se preocupam com aparências, mas antes de tudo com a tranquilidade e o conforto. A grande sala de refeição, contígua, também raramente é utilizada, a não ser em ocasião de grandes jantares ou festas de família; o romancista e sua esposa habitualmente tomam as suas refeições numa pequena peça ao lado da cozinha. Do pátio, o visitante pode notar ao lado da casa uma torre elevada. A escada que leva aos andares superiores está nessa torre, e no alto ficam os aposentos privativos do Sr. Verne. Um corredor forrado com um tapete vermelho, semelhante ao da escada, com desenhos de marinha e outros, leva a um pequeno cómodo de canto, mobilado com uma simples tarimba. Junto da janela fica uma pequena mesa, sobre a qual pode-se ver folhas de papel muito bem cortadas. Sobre a coluna de uma pequena chaminé estão duas estatuetas, uma de Molière e outra de Shakespeare, e mais em baixo está pendurada uma aguarela que representa um iate a vapor entrando na Baía de Nápoles. É neste cómodo que trabalha Verne.

A grande sala vizinha é uma biblioteca repleta de livros, cujas prateleiras vão do solo até o tecto.

Sobre o seu método de trabalho, J. Verne diz: "Levanto-me todas as manhãs antes das 5 horas - um pouco mais tarde, talvez, no Inverno e às 5 horas já me instalo na minha escrivaninha até às onze horas. Trabalho muito lentamente e com o maior cuidado, escrevendo e reescrevendo até que cada frase tome a forma que desejo. Sempre tenho na cabeça pelo menos dez romances em andamento, assuntos e intrigas tão bem preparadas que, veja, se Deus me conceder vida, poderei sem dificuldade terminar os oitenta de que falei. Mas é sobre as provas que passo a maior parte do tempo. Nunca fico satisfeito antes da sétima ou oitava prova, corrijo e torno a corrigir até que se possa dizer que a última prova traz apenas traços do manuscrito. O que supõe um grande sacrifício de "minha algibeira" como também do tempo, mas sempre aperfeiçoa a forma e o estilo, se bem que jamais alguém me faça justiça."

* * *

Estávamos na biblioteca da Sociedade Industrial. Diante do Sr. Verne havia, de um lado, uma pilha de provas, "o sexto jogo", diz ele, e de outro um longo manuscrito que eu olhava com interesse, "mas", diz o romancista com um sorriso caloroso, "é um simples relatório que devo remeter ao conselho municipal de Amiens, do qual sou membro3. Interesso-me muito pelos assuntos da cidade".

Pedi ao Sr. Verne que me falasse de sua vida e seu trabalho e ele respondeu que me contaria coisas que nunca tinha dito antes. A primeira questão se referia à sua juventude e à sua família.

"Nasci em Nantes, 8 de Fevereiro de 1828. Portanto estou agora com 76 anos, e é sobre as minhas impressões da velhice que se deveria questionar, de preferência às lembranças da infância. Éramos uma família muito feliz. Meu pai, um homem admirável, era parisiense de nascimento ou, antes, por adopção, pois nasceu em Bril e foi educado em Paris, onde seguiu os estudos universitários e obteve o diploma de advogado. A minha mãe era de Morlaix, portanto tenho sangue bretão e parisiense ao mesmo tempo."

Estas particularidades são interessantes do ponto de vista psicológico e ajudam a compreender o personagem J. Verne, que une amor pela solidão, o lado religioso e a adoração pelo mar bretão, à jovialidade, ao saber-viver e à alegria de viver do grande citadino - "É um citadino completo" escreveu Claretie.

* * *

"Tive uma infância bastante feliz. O meu pai era procurador e advogado em Nantes e tinha uma boa situação. Era um homem culto e de gostos literários seguros. Escreveu canções numa época em que elas ainda se escreviam na França, isto, entre 1830 e 1840. Mas não era alguém que tivesse ambição e, se bem que ele se distinguisse com os escritos que tenha escolhido terminar, evitou de todas as maneiras a publicidade. As suas canções eram cantadas em família; poucas foram impressas. Reconheço que nenhum de nós é ambicioso. Procuramos ser felizes na vida e fazer tranquilamente nosso trabalho. O meu pai morreu em 1871, aos 73 anos." (Veja, ele poderia ter dito: "Tinha dois anos quando o século nasceu", para se distinguir da célebre nota de Victor Hugo sobre a data de seu nascimento.) "A minha mãe morreu em 1885, deixando 32 netos e, se contarmos os primos e primos-irmãos, 97 descendentes4. Todos os filhos viveram; ou, em outras palavras, a morte não levou nenhum dos cinco filhos. Dois rapazes e três moças, e ainda vivem. Na Bretanha as pessoas têm uma constituição forte. O meu irmão Paul era e continua a ser o meu amigo mais querido. Sim, posso dizer que não é somente meu irmão, mas também meu amigo mais íntimo. E a nossa amizade data do dia mais distante que eu posso recordar. Que passeios fazíamos juntos em barcos, pelas águas do Loire! Aos 15 anos tínhamos explorado todos os cantos e recantos até o mar. Como eram perigosos esses barcos e que riscos corríamos! Às vezes era eu o capitão, às vezes Paul. Mas Paul era o melhor de nós dois. Quando, depois, entrou para a marinha, ele poderia ter-se tornado um oficial de destaque se não fosse um Verne - isto é, se tivesse tido alguma ambição.

Comecei a escrever com a idade de doze anos. Unicamente poesia, horrível poesia. Todavia, lembro-me de uma mensagem que compus pelo aniversário do meu pai - o que na França chamamos cumprimento que acharam muito boa e fui tão felicitado que me senti orgulhoso. Lembro-me até que na época eu dedicava muito tempo aos meus escritos, recopiando e corrigindo e nunca verdadeiramente satisfeito com o que havia feito.

Suponho que se deve ver no amor que eu tinha pela aventura e pela água o que, mais tarde, iria orientar minhas tendências como escritor. É certo que o método de trabalho que tinha desde então permaneceu por toda a vida. Penso que jamais fiz um trabalho descuidadamente.

Não posso dizer que eu seja particularmente impulsionado pela ciência. Na verdade nunca fui, isto é, jamais segui estudos científicos, nem mesmo fiz experiências. Quando era jovem, porém, adorava observar o funcionamento de uma máquina. O meu pai tinha uma casa de campo em Chantenay, na embocadura do Loire, e ao lado existe a usina de Indret, que pertence ao Estado. Nunca fui a Chantenay sem entrar nesta usina e olhar as máquinas a funcionar, de pé durante horas. Este gosto acompanhou-me por toda a vida e hoje tenho sempre prazer em olhar uma máquina à vapor ou uma bela locomotiva em velocidade, tanto quanto contemplar um quadro de Rafael ou Corrège. O interesse pelas indústrias sempre foi um traço marcante do meu carácter, tão marcante, bem entendido, quanto o meu gosto pela literatura, do qual falarei daqui a pouco, e quanto ao prazer que me proporcionam as belas artes, em cada museu ou galeria; sim, poderia dizer, toda galeria de arte, seja qual for sua importância na Europa. A usina de Indret, as nossas excursões pelo Loire e os versos que eu rabiscavam constituíam os três principais prazeres e ocupações da minha juventude.

Fui aluno do Liceu de Nantes, onde permaneci até a classe de retórica, depois enviaram-me a Paris, para estudar Direito. A minha matéria preferida sempre foi a geografia, mas, na época em que fui para Paris, estava inteiramente absorvido pelos projectos literários; no mais alto grau a influência de Victor Hugo, bastante apaixonado pela leitura e releitura das suas obras. Podia recitar de cor páginas inteiras de Notre Dame de Paris, mas foram as peças de teatro que mais me influenciaram, e foi sob essa influência que aos 17 anos escrevi algumas tragédias e comédias, sem contar os romances. Por exemplo, escrevi uma tragédia em cinco actos, em verso, intitulada Alexandre VI, a tragédia do papa Borgia. Uma outra também em cinco actos, em versos, na mesma época, foi "La Conspiration des poudres", com Guy Fawkes como herói. "Un drame sous Louis XV" foi outra tragédia em verso, e como comédia fiz uma em cinco actos chamada "Les Heureux du Jour". Todo este trabalho era feito com o maior cuidado, uma preocupação constante quanto ao estilo. Sempre procurei esmerar-me no estilo, o que nunca foi reconhecido.

Retrato de Victor Hugo - um dos mais notáveis escritores franceses

Cheguei em Paris como estudante no momento em que a "costureirinha" e tudo o que isto implicava desaparecia do Quartier Latin. Não posso dizer que frequentava muito os quartos dos meus companheiros de estudo, porque, você sabe, nós, os bretões, somos um povo de clã, e quase todos os meus amigos eram colegas de Nantes, que chegaram à Universidade de Paris ao mesmo tempo que eu. Quase todos eram músicos e, nesse período de minha vida, eu era eu-mesmo. Compreendia a harmonia e acredito que se tivesse me empenhado numa carreira musical teria tido menos dificuldades para progredir do que muitos outros. Victor Massé era um dos meus colegas. Delibes também, com quem tinha mais intimidade. Nós nos paparicávamos. Eram amigos que tinha feito em Paris. Entre os amigos bretões havia Aristide Hignard, um músico que, embora tenha obtido o segundo Prémio de Roma, jamais se sobressaiu. Havia colaboração. Eu escrevia as letras, ele a música. Compusemos uma ou duas operetas que foram encenadas, e canções.

Uma dessas canções, intitulada Les Gabiers, interpretada pelo barítono Charles Bataille, ficou muito popular na época. Lembro-me do refrão: 'Alerta,/Alerta, crianças, alerta,/0 céu é azul, o mar é verde,/Alerta, alerta.'

Um outro amigo da época de estudante, que se manteve depois, chamava-se Leroy, actualmente deputado por Morbihan. Mas, aquele por quem tenho a maior gratidão e afeição é Alexandre Dumas Filho, que encontrei pela primeira vez aos 21 anos. Tornamo-nos amigos logo em seguida e ele foi o primeiro a encorajar-me. Diria mesmo que foi meu primeiro protector. Actualmente não o vejo mais, porém, enquanto viver não esquecerei a sua gentileza e a dívida que tenho com ele. Apresentou-me ao seu pai; trabalhou em colaboração comigo. Escrevemos juntos uma peça intitulada "Pailles rompues", que foi encenada no Ginásio, e uma comédia em três actos, "Onze jours de siège", representada no Teatro de Vaudeville. Eu vivia então com uma pequena mesada enviada pelo meu pai e sonhava com a sorte, o que me levou a uma ou duas especulações na Bolsa. Preciso dizer que elas não realizaram os meus sonhos. Mas tirei proveito das visitas assíduas aos bastidores da Bolsa, porque foi lá que aprendi a conhecer as peripécias do comércio, a febre dos negócios que utilizei nos meus romances.

Enquanto especulava na Bolsa, colaborava com Hignard nas operetas e canções, e com Alexandre Dumas nas comédias, e enviava novelas a magazines. A minha primeira obra apareceu em "Musée des Familles", onde você pode encontrar a história de um louco num balão, que marca o início da linha que estava destinado a seguir nos meus romances5. Era então secretário do Teatro Lírico, depois de M.Perrin. Eu adorava o palco e tudo o que havia ao redor e escrever peças é o trabalho que sempre me proporcionou o maior prazer."

"Estava com vinte e cinco anos quando escrevi o meu primeiro romance científico, Cinco semanas em balão. Foi publicado por Hetzel em 18616 com sucesso imediato."

Neste momento interrompi o Sr. Verne: "Gostaria que me contasse como escreveu este romance, porque e qual foi o trabalho de preparação. O senhor conhecia o funcionamento de um balão ou tinha alguma experiência?

 

"

"Nenhuma", respondeu. "Escrevi Cinco semanas em balão não como uma história centrada na ascensão em balão, mas, de preferência, na África. Sempre tive paixão pela geografia e pelas viagens, e queria fazer uma descrição romântica da África. Não havia nenhum outro meio de conduzir os meus viajantes através da África que não fosse o balão, eis porque o introduzi na história. Na época eu ainda não tinha subido, na verdade só viajei uma vez de balão. Foi em Amiens, muito tempo depois da publicação do romance7. Só "três quartos de hora num balão", porque um pequeno incidente ocorreu no momento da partida. Godard, o aeronauta, estava abraçando o seu filhinho, quando o balão se foi e tivemos que conservar o menino connosco, e o balão estava tão carregado que ele não pôde ir muito longe. Voamos até Longeau, no entroncamento ferroviário por onde você passou para chegar aqui. Posso dizer que na época em que escrevi esse romance, como ainda hoje, eu não acreditava na possibilidade de dirigir um balão, salvo numa atmosfera completamente estática, como nesta sala, por exemplo. Como se pode fabricar um balão capaz de enfrentar correntes que fazem seis, sete ou oito metros por segundo? É um sonho puro e simples, se bem eu acredite que, se a questão for resolvida um dia, será com uma máquina mais pesada do que o ar, segundo o princípio do pássaro, que pode voar embora seja mais pesado do que o ar que ele desloca."

"Então o senhor não possuía dados científicos em que se apoiar?"

"Nenhum. Direi mesmo, nenhum estudo cientifico, embora no decorrer de minhas leituras encontrasse muita coisa, aqui e ali, que tiveram a sua utilidade. Posso assegurar-lhe que sou um grande leitor e tenho sempre um lápis à mão. Trago sempre comigo um caderno, e como o personagem de Dickens, logo de início anoto tudo o que me interessa ou que poderá servir para os meus livros. Para lhe dar uma ideia: venho aqui todos os dias após a refeição do meio-dia, entrego-me imediatamente ao trabalho e leio do começo ao fim quinze jornais diferentes, sempre os mesmos quinze, e digo-lhe que pouca coisa escapa à minha atenção. Quando vejo alguma coisa interessante, anoto. Em seguida leio as revistas, como La Revue bleue, La Revue rose, La Revue des deux monde, Cosmos, La Nature por Tissandier, L'Astronomie por Flammarion. Leio também por inteiro os boletins das Sociedades Científicas e, em particular, os da Sociedade Geográfica, porque, note bem, a geografia é ao mesmo tempo a minha paixão e meu tema predilecto de estudo.

Possuo todas as obras de Reclus - tenho grande admiração por Elisée Reclus - e tudo de Arago. Leio também, e releio, pois sou um leitor muito atento, a colecção "Le tour du monde", uma série de narrativas de viagens. Até o momento acumulei muitos milhares de notas sobre todos os assuntos, e hoje tenho pelo menos vinte mil anotações que poderiam servir no meu trabalho, e que ainda não foram utilizadas. Várias dessas notas foram tiradas de conversas com pessoas. Adoro ouvir pessoas falarem, com a condição de que falem sobre assuntos que conheçam."

"Como lhe foi possível fazer o que fez sem estudo científico de espécie alguma?"

"Tive a oportunidade de entrar no mundo num momento em que já existiam dicionários sobre todos os assuntos possíveis. Bastava eu encontrar no dicionário o assunto sobre o qual procurava um esclarecimento, e pronto. É certo que com muitas leituras consegui inúmeros dados e, como já disse, guardo na cabeça fragmentos de informações científicas. Foi assim que um dia, num café em Paris, enquanto lia, no "Le Siècle", que um homem podia viajar oitenta dias ao redor da Terra, imediatamente imaginei que eu poderia aproveitar de uma diferença de meridiano, e fazer o meu viajante ganhar ou perder um dia em sua viagem. Tinha encontrado o desenrolar que procurava. A história foi escrita muito tempo depois. Guardo ideias na lembrança durante anos - às vezes dez ou quinze antes de lhes dar forma.

O meu objectivo foi mostrar a Terra, não somente a Terra, mas o Universo, porque, nos meus romances algumas vezes transportei os meus leitores para regiões além da Terra. Procurei ao mesmo tempo atingir um ideal de estilo. Dizem que não pode haver estilo num romance de aventuras, mas não é verdade; porém admito que é muito mais difícil escrever num bom estilo literário esse tipo de romance do que estudos de caracteres hoje tão em voga. Confesso", e então J. Verne ergueu ligeiramente os largos ombros, "que não sou grande admirador do chamado romance psicológico, porque não vejo o que um romance tem a ver com a psicologia e não posso dizer que admiro os ditos romancistas psicológicos. Entretanto, faço excepção a Daudet e Maupassant. Tenho a maior admiração por Maupassant. É um génio, que recebeu do céu o dom de escrever sobre tudo e que produz com tanta naturalidade e facilidade quanto a macieira que produz maçãs. Todavia, o meu autor favorito é, e sempre foi, Dickens. Não conheço além de uma centena de termos ingleses, por isso o leio traduzido. Mas, afirmo-lhe, senhor", Verne colocou a mão sobre a mesa, insistindo, "que li tudo de Dickens pelo menos dez vezes. Não posso dizer que o prefiro a Maupassant, porque não há comparação possível entre os dois. Mas gosto imensamente dele, e no meu próximo romance, Ptit-Bonhomme, dou provas disto e do meu reconhecimento. Sou também e sempre fui grande admirador dos romances de Cooper. Há quinze deles que considero imortais."

Retrato de Charles Dickens

Depois, falando como se sonhasse, Verne acrescentou: "Dumas muitas vezes me dizia, quando eu lamentava que não era reconhecido no meu lugar na literatura francesa: "Você deveria ter sido um autor americano ou inglês. Assim, os seus livros traduzidos para o francês lhe teriam dado enorme popularidade na França e teria sido considerado pelos seus compatriotas um dos maiores mestres da ficção." Mas, sendo as coisas como são, eu não conto na literatura francesa. Há quinze anos, Dumas propôs o meu nome, para a Academia Francesa, e, como vários amigos ali tinham assento, Labiche, Sandoz e outros, parecia haver uma oportunidade de que eu fosse eleito e o meu trabalho oficialmente reconhecido. Mas isso jamais aconteceu e hoje, quando recebo cartas da América dirigidas a "M. Jules Verne de l'Académie française", sorrio comigo mesmo. Desde o dia em que se propôs o meu nome, não menos de quarenta e duas eleições se processaram na Academia Francesa que, por assim dizer, se renovou inteiramente, porém, fui sempre ignorado."

Foi então que Verne pronunciou as palavras que coloquei no início desta entrevista, por causa de sua importância.

Para mudar de assunto, pedi ao mestre que falasse das suas viagens.

"Viajei de iate para meu prazer, mas sempre com a ideia de tomar notas para os meus livros. Foi uma preocupação constante e cada um de meus romances se beneficiou com minhas viagens. Por exemplo, em O bilhete de lotaria encontra-se o relato de experiências pessoais e observações feitas no decorrer de uma viagem à Escócia, nas ilhas de lona e Staffa, assim como de uma viagem na Noruega em 1862, quando se subiu o canal de Estocolmo a Cristiana, passando por noventa e sete eclusas, uma viagem extraordinária de três dias e três noites num steamer, e quando se foi de caleça pela parte mais selvagem da Noruega, o Telemark, e visitou-se as quedas do Gosta, de uma altura de novecentos pés. Em As índias negras narrei a viagem pela Inglaterra e a minha visita aos lagos escoceses. Uma cidade flutuante surgiu da viagem pela América no Great Eastern: fui a New York, visitei Albany e vi as quedas do Niagara e tive uma sorte formidável e a alegria de ver o Niagara todo coberto de gelo. Era 14 de Abril, e havia torrentes de água que despencavam. Pelos mordentes abertos do gelo. Matias Sandorf veio de um cruzeiro de Tânger a Malta num iate, e SaintMichel, baptizado como meu filho Michel, que me acompanhou, juntamente com a sua mão e o meu irmão Paul. Em 1878, com Raoul Duval, Hetzel filho e o meu irmão, viajei de iate pelo Mediterrâneo, uma viagem muito instrutiva e bastante agradável. Viajar era o prazer da minha vida e foi com muita tristeza que tive de abandonar tudo, em 1886, depois de um acidente. Você deve conhecer esta triste história, em que um de meus sobrinhos, que me adorava, veio ver-me um dia em Amiens, e que, depois de ter resmungado qualquer coisa, pegou num revólver e atirou em mim, ferindo-me a perna esquerda e me tornando enfermo pelo resto da vida. A ferida nunca cicatrizou e a bala nunca foi extraída. O menino tinha ficado perturbado e disse que agira desse modo para atrair a atenção para minha candidatura à cadeira da Academia Francesa. Ele está agora num asilo e receio que nunca fique curado. O grande desgosto que isso me causa é, sobretudo, nunca mais poder rever a América. Queria tanto ir a Chicago este ano, mas, neste estado de saúde, e com esta ferida constante, é completamente impossível. E eu amo tanto a América e os americanos! Quando escrever para a América, não deixe de dizer-lhes que, se eles gostam de mim - estou certo que sim, porque todos os anos recebo dos Estados Unidos milhares de cartas - correspondo com todo o meu coração à sua afeição. Oh! Se ao menos pudesse vê-los, seria a grande alegria da minha vida!

Se bem que nos meus romances a maior parte dos dados geográficos provêem de observações pessoais, às vezes confio nas minhas leituras, para as descrições. Foi assim no romance de que falei, Ptit-Bonhomme, que vai sair, quando descrevo as aventuras de um rapaz na Irlanda, desde a idade de 2 até 15, quando ele fez a sua fortuna e a dos seus amigos, e que é o desfecho do romance. Ele dá volta por toda a Irlanda e, como nunca estive lá, as descrições de paisagens e localidades foram inspiradas em outras obras.

No meu trabalho, estou vários anos adiante. O próximo romance, isto é, o que será publicado no próximo ano, As maravilhosas aventuras de Mattre Anfiter, está completamente pronto. É a história de um pesquisador e descobridor de tesouros, e a intriga gira em torno de um problema geométrico muito curioso. Actualmente estou preso ao romance que aparecerá em 1895, mas nada posso dizer sobre ele, porque ainda não tomou forma. Entre os dois, escrevo novelas. No próximo número de Natal do Figaro sairá um dos meus contos, M. Ré-dièze et Mlle. Mi-beniol (Ré sustenido e Mi bemol, como você sabe, são a mesma nota no piano). Vê onde quero chegar? Ali, os meus conhecimentos musicais entraram em jogo. Nunca se perde nada do que se aprendeu.

Muitas vezes me pergunto, como você o fez, porque resido em Amiens, eu que sou inteiramente parisiense por instinto. Pois bem, é porque, como já lhe disse, tenho sangue bretão e amo a paz e a tranquilidade, e só poderia ser mais feliz num claustro. Uma vida tranquila de estudo e de trabalho é um prazer.

Vim a Amiens pela primeira vez em 1857 ou 588, quando encontrei a jovem que se tornaria a minha esposa e que, na época, se chamava Madame de Vianne e era viúva, com duas filhas. Depois, os laços familiares e a tranquilidade do lugar me prenderam. E foi muito bom, pois, como Hetzel me disse outro dia, se tivesse ficado em Paris, teria escrito uns dez romances a menos. Amo muito a vida que levo aqui. Já contei como trabalho pela manhã e leio à tarde. Faço exercício o mais possível. É o segredo da minha saúde e da minha vitalidade. Sempre fui apaixonado pelo teatro; aliás, todas as vezes que uma peça é encenada aqui, pode estar certo de encontrar Madame Verne e o marido no seu camarote. Nestes dias jantamos no Hotel Continental9 , para sairmos um pouco e darmos folga aos empregados.

O nosso filho único, Michel, mora em Paris, casado e com filhos. É um competente escritor de assuntos científicos. Só tenho um animal; o seu retrato aparece na foto de casa; é o meu velho cão, Follet."

Depois, coloquei uma questão que, embora indiscreta, me parecia necessária. Ouvira dizer que os rendimentos que ele auferia dos seus maravilhosos livros eram inferiores ao de um jornalista comum. E de fonte bastante autorizada soubera que J. Verne jamais ganhou, em média, mais de cinco mil dólares por ano. Ao que ele responde:

"Preferiria nada dizer sobre isto. É verdade que os meus primeiros livros, inclusive aqueles que tiveram o maior sucesso, foram vendidos pelo décimo de seu valor; mas, após 1875, isto é, após "Michel Strogoff", as minhas normas mudaram e dão-me uma participação honesta nos benefícios dos meus romances. Não tenho do que me queixar. Tanto melhor se o meu editor lucrou igualmente. Certamente eu poderia lamentar não ter feito melhores contratos para os meus livros. Assim, A volta ao mundo em 80 dias, sozinho, na França, conseguiu levantar dez milhões de francos, e Michel Strogoff, sete milhões, dos quais recebi muito menos do que me cabia. Eu, porém, não sou e jamais fui homem para ganhar dinheiro. Sou homem de letras e artista, vivendo à procura de um ideal, lançando-me selvagemente a uma ideia, e ardendo de entusiasmo pelo meu trabalho; e quando está terminado ponho de lado, esquecendo tudo a tal ponto que muitas vezes sento-me em minha mesa, tomo um romance Verne e o leio com prazer. E eu teria preferido um milhão de vezes um pouco de justiça por parte de meus compatriotas do que os milhões de dólares que os livros poderiam ter-me rendido. É isto que lamento e sempre lamentarei."

Lancei uma olhadela para a roseta vermelha de oficial da Legião de Honra presa na lapela da jaqueta azul e confortável do mestre.

"Sim", disse ele, "é um pouco de reconhecimento"; depois, com um sorriso: "Fui o último a ser condecorado sob o Império. Duas horas depois da assinatura do meu decreto, o Império tinha deixado de existir. A minha promoção ao grau de oficial foi assinada no mês de Julho do derradeiro ano. Mas, não aspiro mais às condecorações daqui por diante. O que eu queria é que se notasse o que fiz ou tentei fazer, e que não se negligenciasse o artista no contista. Eu sou artista", repetiu J. Verne, inteiriçando-se e batendo vigorosamente o pé no tapete.

"Eu sou artista", diz J. Verne. Na América, não importa quantos leitores haja, isto ecoará.

 

ANEXO

1 Esta entrevista apareceu sob o título de "Jules Verne at home: His own account of his life and work", in McClures Magazine, vol. 11, No. 2, Janeiro de 1894.

2 Júlio Verne contabiliza seus escritos em volume; é obrigado por contrato com Hetzel, a publicar dois volumes por ano. Conforme sua extensão, os romances representam um, dois ou três volumes. Por exemplo, Cinco semanas em balão vale por um romance, Vinte mil léguas submarinas, por dois, e Os filhos do capitão Grant, por três. Os volumes 76º e 77º correspondem às duas partes de Ptit Bonhomme, que surge algum tempo depois desta entrevista, em Novembro de 1893.

3 Trata-se do relatório sobre o aproveitamento do Teatro municipal apresentado ao Conselho Municipal de Amiens por ocasião da sessão de 17 de Janeiro de 1894.

4 A mãe de Júlio Verne morreu em 1887.

5 Un voyage en ballon, Musée des Familles, Agosto de 1851.

6 Cinco semanas em balão foi escrito em 1862 e Júlio Verne tinha trinta e quatro anos (e não vinte e seis). O romance foi publicado por Hetzel em 1863.

7 O relato dessa subida foi publicado por Verne em 1873 sob o título "Vingt-quatre minutes en ballon".

8 Sic: foi em 1856, mas os Verne se casaram em 1857.

9 O Hotel Continental, hoje desaparecido, ficava na rue des Trois-Cailloux, No. 62, em frente ao Teatro.

Traduzido do inglês por Sylvie Malbraneq e do francês por A.G.R.D., publicado no Magazine Littéraire, Nº 281, Outubro de 1990.

 

Apesar de alguns erros de detalhe, esta entrevista (publicada no jornal inglês Strand Magazine em Fevereiro de 1895 pelo título Jules Verne at home) que é a mais conhecida, completa a que um ano antes realizara Sherard.

Marie A. Belloc encontrou-se com o escritor em Outono de 1894 no seu domicilio em Amiens.

 

O autor de A volta ao mundo em 80 dias, de Cinco semanas em balão e de muitas outras histórias maravilhosas que fizeram sonhar centenas de leitores em várias partes do mundo, disfruta a sua vida trabalhando feliz na sua casa na cidade francesa de Amiens.

O habitante mais humilde da cidade poderia indicar onde se encontra a residência de Jules Verne. Está no número 1 da Rua Charles-Dubois. É uma encantadora casa antiga, situada na esquina de uma rua rural que desemboca numa praça1.
A pequena porta, rodeada de um muro coberto de líquenes, foi aberta por uma velha empregada de aparência alegre. Disse-lhe que tinha marcação e rapidamente me levou através do pavimentado pátio limitado por ambos os lados por irregulares e pitorescas construções ladeadas por uma torre, típica nas casas de campo francesas. Pude admirar o jardim da casa de Jules Verne. Estava composto de grandes faias que abrigava com a sua sombra um grande gramado bem cuidado, enfeitado por densos tufos de plantas. Não havia nenhuma folha seca nas alamedas de seixos em que o escritor passeia todos os dias. Através de um caminho de grandes pedras, a servente conduziu-me a um hall cheio de pequenas palmeiras e arbustos floridos, o qual leva ao salão onde, passados alguns minutos, se juntaram o meu anfitrião e sua mulher que logo me saudaram.

O célebre escritor é o primeiro a reconhecer que madame Verne desempenhou um importante papel em cada um dos seus sucessos. É difícil acreditar que essa mulher alegre e activa celebrou suas bodas de ouro há mais de um ano2.

Legião de Honra

 

Jules Verne não corresponde à imagem que fazemos de um grande escritor. Em vez disso, dá a impressão de ser um cavalheiro rural e culto apesar de se vestir sempre de negro, cor que a maioria dos membros franceses das profissões liberais veste. O seu casaco é decorado por um pequeno botão vermelho, indicando que lhe foi conferida a Legião de Honra. Depois de se ter sentado, observei que o meu anfitrião não parece ter 68 anos. O meu critério foi mais convincente quando verifiquei que tinha mudado muito pouco fisicamente ao compará-lo com o grande retrato que descansava sobre a parede —precisamente na direcção oposta ao da sua esposa—, o qual tinha sido pintado vinte anos atrás3.

 

 

"Verne não gosta de falar dos seus livros nem de si mesmo. Se não fosse pela amável ajuda da sua mulher, que poderia falar do orgulho que tem pela genialidade do seu marido, teria sido impossível fazê-lo falar sobre a sua carreira literária ou do seu método de trabalho.

"Não me lembro do tempo no qual eu não escrevia ou no qual decidi tornar-me escritor. Como poderá ver, muitas coisas conspiraram contra isso", observa, "Sou bretão de nascimento. Nantes é minha terra natal, mas meu pai era parisiense tanto na educação quanto no gosto, apaixonado pela literatura, porém modesto demais para revelar o seu trabalho. Era um poeta requintado. Talvez por isso eu tenha estreado na carreira literária escrevendo poesia -seguindo talvez o exemplo dos escritores franceses da época-, a qual se transformou numa tragédia de cinco actos", concluiu com um sorriso nos lábios..

"Contudo, minha primeira obra verdadeira foi uma comédia ligeira escrita em colaboração com Alexandre Dumas Filho, que foi e continua a ser um de meus melhores amigos, acrescenta Verne após curta pausa. A nossa peça se chamava
Les Pailles rompues (Relações rompidas) e foi a palco no Teatro Gymnase em Paris. Mas, por mais que gostasse de escrever comédias, elas não rendiam muito em termos financeiros.
Ainda assim jamais perdi a paixão pelo teatro e de tudo o que se relacione com ele. Uma das maiores alegrias que tive foram as adaptações teatrais dos meus romances, principalmente de
Michel Strogoff, revela.
Já me perguntaram muitas vezes como tive a ideia de escrever -queria usar um nome melhor- os chamados romances científicos. Sempre me dediquei ao estudo da geografia como aquelas pessoas que adoram estudar História e que pesquisam sobre ela. Creio, realmente, que a minha paixão pelos mapas e pelos grandes exploradores levaram-me a redigir o primeiro de uma extensa série de romances geográficos
", conta.

 

"Quando escrevi o meu primeiro livro, Cinco semanas em balão, escolhi a África como cenário por uma simples razão de que era e continua a ser o continente menos conhecido. Imediatamente pensei que a forma mais engenhosa de explorar esta porção da superfície da Terra seria em balão. Adorei escrever essa história e devo dizer que tanto essa como todas as minhas obras, aquelas que são baseadas numa prévia investigação, os factos narrados são do mais realista possível, explica.
Terminada a redacção da história, enviei o manuscrito a um editor parisiense muito conhecido, monsieur Jules Hetzel, que leu o conto, se interessou por ele e que me fez uma oferta que aceitei. Posso dizer-lhe que este homem notável e o seu filho tornaram-se meus grandes amigos estando a sua editora prestes a publicar o meu 70° romance4
."

- Mas não viveu momentos de inquietude esperando pela fama? -perguntei. O seu primeiro livro teve sucesso imediato, tanto na França quanto no exterior?

"Sim,
Cinco semanas em balão é, até aos dias de hoje, um dos meus romances mais populares mas devo lembrar que já tinha 35 anos quando ele foi lançado, e que me tinha casado oito anos antes" lembra olhando carinhosamente para a sua esposa5.

- A sua paixão pela Geografia não o fez inclinar-se para as ciências?
"Não me qualifico como um cientista, porém, sinto-me um afortunado por ter nascido num tempo de descobertas notáveis e de invenções maravilhosas".

Altiva, madame Verne intervém: “Com certeza que a senhora sabe que, nos romances do meu marido, muitos fenómenos científicos, aparentemente impossíveis, se realizaram."

"Tudo não passou de mera coincidência" -interveio o escritor com um ar desaprovador-, "nascida do facto de, ao inventar um fenómeno científico, eu tentar sempre tornar as coisas tão verdadeiras e simples quanto possível. Quanto à exactidão das minhas descrições ela deve-se ao facto de fazer inúmeras anotações quando da leitura de livros, jornais e revistas científicas que tenho acesso. Essas notas eram e são classificadas segundo ao tema a que pertencem. Não consigo dizer o quanto foram elas preciosas para o meu trabalho", explica.
"Assino mais de 20 jornais" -continuou- "e sou um ávido leitor de publicações científicas. Além do meu trabalho, umas das coisas que mais tenho enorme prazer é ler ou ouvir falar de uma nova descoberta ou experiência científica que ocorreu em qualquer campo da ciência como a astronomia, meteorologia, ou fisiologia", diz.

- Tira algumas ideias dessas leituras ou as suas histórias nascem apenas da sua imaginação?

"Acho impossível dizer o que inspira uma história, uma vez uma coisa outra vez outra. Talvez uma coisa ou outra. Muitas vezes conservo uma ideia na memória durante anos, antes de colocá-la no papel. Posso dar-lhe alguns exemplos. A
A volta ao mundo em 80 dias nasceu da leitura de um anúncio turístico num jornal, que mencionava ser possível dar a volta ao mundo em 80 dias. Imediatamente veio-me à memória que o viajante, beneficiado pela diferença do meridiano, poderia ganhar ou perder um dia na viagem. Foi esta a ideia original que originou toda a acção da história. Graças a essa circunstância, o meu herói, Phileas Fogg, chegou a casa a tempo de ganhar sua aposta, em vez de um dia mais tarde, como pensava."

- Falando de Phileas Fogg, ao contrário da maioria dos escritores, o senhor parece gostar que os seus heróis sejam ingleses ou estrangeiros.

"Sim, eu acho que os povos anglófonos dão excelentes heróis, sobretudo quando se trata de aventuras ou expedições científicas. Tenho profunda admiração pela coragem e o espírito empreendedor dessa nação que tenta sempre ir mais à frente, e que plantou o Union Jack (bandeira britânica) em grandes partes do mundo."

- As mulheres não costumam ter papéis importantes em suas histórias, observo.

Um olhar de aprovação da minha anfitriã deu-me conta que estava de acordo com a veracidade da minha afirmação.
"Não concordo, de modo algum, retruca Verne passionalmente. Tomemos por exemplo a
Mistress Branican e as encantadoras jovens que aparecem em muitas das minhas obras. Sempre que a inclusão de uma personagem feminina se torna necessária pode ter certeza de que a encontrará. Fez uma pausa e depois sorriu: O amor é uma paixão absorvente, que deixa pouco espaço nos corações; os meus heróis têm necessidade de toda a concentração para chegar aos seus objectivos, pelo que a presença de uma jovem encantadora, de quando em vez, poderia prejudicar a iniciativa. Sempre tive o cuidado de que as minhas histórias possam ser lidas por todos os jovens, sem a menor hesitação. Evito escrupulosamente cenas que um rapaz não gostaria de ver a sua irmã lendo."

"Antes que a luz se vá, não quer o local de trabalho e estudo do meu marido -perguntou madame Verne. Podemos continuar a nossa conversa lá."
 

Guiados pela senhora Verne fomos conhecer a biblioteca do marido, a que chega por uma escada em caracol, atravessando uma série de cómodos nos quais o escritor criou boa parte dos seus livros. Nas paredes, grandes mapas testemunhos da sua paixão pela geografia e pela informação precisa.
 

aqui -abrindo a porta de um quarto do tamanho de uma cela- que o meu marido escreve todas as manhãs. Deve saber que se levanta às 5 horas e ao almoço -ocorre pelas 11 horas- termina o seu dia de trabalho, isto é, já escreveu e corrigiu as provas dos seus manuscritos. Geralmente deita-se por volta das 20h ou 20.30h."

A mesa de madeira está à frente de uma grande janela, exactamente na direcção oposta de uma cama. Desta forma, nas manhãs de Inverno, quando o escritor faz uma pausa no seu trabalho matinal, pode ver a aurora solar que começa a observar-se no topo da Catedral de Amiens.
A pequena câmara é despojada de toda a ornamentação. Apenas se encontram dois bustos, um de Moliére e outro de Shakespeare, e alguns quadros entre os quais uma aguarela do iate do meu anfitrião, o Saint-Michel, um esplêndido iate onde Jules e a sua esposa passaram das horas mais felizes das suas vidas.

 

 

O escritório dá para uma sala magnífica, a biblioteca de Jules Verne. As suas paredes estão cobertas por fileiras de livros e no centro uma mesa em baixo da qual aparece um grande monte de jornais, periódicos relatórios científicos, , todos cuidadosamente ordenados, sem falar de uma representativa colecção de revistas literárias francesas e inglesas. Caixas de papelão, ocupando pouco espaço, contêm mais de vinte mil anotações preenchidas pelo escritor.

“Diz-me o que lês e eu te direi quem és”. Essa seria uma excelente paráfrase de um dito antigo que se aplicaria muito bem a Jules Verne. A sua biblioteca só existe para servir, não para mostrar. Nela há exemplares surrados, porém tão caros aos olhos do seu proprietário, de intelectuais como Homero, Virgílo, Montagne e Shakespeare, edições de James Fenimore Cooper, Charles Dickens e Walter Scott. Ainda que pouco danificados pelo tempo, - são estimados pelo dono- ostentam vestígios de uma utilização constante. Encontram-se lá também, em encadernação mais recente, vários dos mais conhecidos romances ingleses.

Caloroso, Jules Verne observa que esses livros provam que "é sincera a minha afeição pela Grã-Bretanha. Durante toda a vida tive prazer a ler os romances de Sir Walter Scott e posso-lhe assegura que, durante uma inesquecível viagem às Ilhas Britânicas, foi na Escócia que vivi os melhores momentos da minha vida. Ainda vejo, como uma visão, a formosa e pitoresca cidade de Edimburgo, com o seu Heart of Mid-Lothian6, e muitas outras lembranças encantadoras; os Highlands7; a ilha de Iona8 separada do resto do mundo e das selvagens ilhas Hébridas9. Para alguém familiarizado com as obras de Scott existem muito poucos distritos da sua terra nativa que não tenha alguma associação com o escritor e o seu trabalho imortal.

- Qual foi a impressão que levou quando visitou Londres?

Considero-me um devoto do Tamisa10. Penso que o grande rio é o rasgo mais chamativo dessa extraordinária cidade.

- Gostaria de saber sua opinião sobre nossa literatura juvenil e os romances de aventura. Com certeza o senhor sabe que nós, na Inglaterra, damos grande importância a esse género literário.

"Oh sim, principalmente com esse clássico tão estimado, tanto pelos adultos quanto pelas crianças que é Robinson Crusoé. E talvez a Sra. escandalize-se ao saber que pessoalmente, prefiro o velho Robinson Crusoé suíço. Costumamos esquecer que Crusoé e o seu companheiro Sexta-feira não são mais do que um episódio de uma história de sete volumes. Para mim o grande mérito do livro é que, aparentemente, foi o primeiro romance desse género a ser escrito. E acrescenta rindo: todos nós escrevemos sobre robinsones, sendo porém difícil saber se teríamos a ideia sem o seu célebre modelo."

- Como classificaria outros autores de romances de aventura inglesa?

"Infelizmente só consigo ler os que foram traduzidos para o francês. Nunca me canso de ler em francês as obras do Fenimore Cooper; alguns dos seus romances merecem a imortalidade. Ouso esperar que serão ainda lembrados bem depois de já terem sido esquecidos os gigantes da literatura que se lhes seguiram. Também amo muito os divertidos romances do Capitão Marryat. Graças à minha incapacidade de ler inglês, não estou bem familiarizado com Mayne Reid e Robert Louis Stevenson. Em todo caso A Ilha do tesouro, o seu último romance, que tenho traduzido, agradou-me muito. Lendo-o tive a impressão de que tem um extraordinário frescor e uma força prodigiosa. Ainda não mencionei o escritor inglês que considero mestre de todos: Charles Dickens.- expressou Verne assim que o seu rosto se iluminou de entusiasmo juvenil. Acho que o autor de Nicolas Nickeleby e David Coperfield domina o sentimento da emoção, do humor, do imprevisto, da intriga. Tem tantas qualidades que uma só bastaria para garantir a reputação de um autor menos favorecido. Eis aí mais um cuja fama se poderá desvanecer mas que jamais se extinguirá."

Madame Verne chama a minha atenção para as grandes prateleiras cheias de livros aparentando ser muito novos e poucos lidos. "Aqui pode ver diversas edições do meu marido em diferentes idiomas: francês, alemão, português, holandês, sueco e russo. Inclusive até mesmo uma tradução japonesa e outra árabe de
A Volta ao Mundo em 80 Dias", diz a minha anfitriã, abrindo as curiosas páginas encadernadas em tecido, que revelam as aventuras de Phileas Fogg para as crianças árabes. “O meu marido jamais releu os seus romances. O seu interesse deixa de existir após a leitura das últimas provas apesar de já lhe ter ocorrido reflectir durante anos sobre uma intriga ou sobre as situações de uma história”.

 

-Qual é seu método de trabalho? Pergunto ao escritor

"Não vejo o interesse que o público possa ter, mas ainda assim vou iniciá-la nos segredos de meu trabalho literário. -diz com humor. Não recomendaria aos outros que procedessem da mesma maneira. Creio que cada qual trabalha a seu modo, sabendo, instintivamente, qual seria o melhor método. Pois bem, começo por, de início, estabelecer as grandes linhas do romance. Jamais começo um livro sem saber começo, meio e fim. Até agora tive a sorte de sempre ter em mente não apenas um, mas uma meia dúzia de projectos bem determinados. Se encontrar um assunto que considero muito difícil, considero a ideia de abandonar esse projecto. Terminado o trabalho preliminar, estabeleço um plano de capítulos, começando então a verdadeira escrita da primeira versão a lápis, deixando uma margem de meia página para as correcções. Depois releio tudo e reescrevo a tinta. Acho que o meu trabalho verdadeiro começa com a primeira colecção de provas, quando corrijo não apenas cada frase, como também reescrevo capítulos inteiros. Parece-me que não domino o tema senão quando vejo o trabalho impresso. Felizmente o meu editor concede-me todo espaço para as correcções e frequentemente chego a ler oito ou nove provas. Invejo, mas não quero imitar, aqueles não vêem motivos para modificar ou acrescentar uma só palavra, desde o capítulo primeiro até a palavra fim", explica.

- Esse método deve atrasar bastante o seu trabalho.

"Não acho. Mantendo hábitos regulares, produzo invariavelmente dois romances por ano. E estou sempre adiantado em relação ao meu trabalho. Actualmente já estou a escrever uma história que está prevista para 1897. O que significa dizer que tenho cinco manuscritos prestes a serem impressos11. É bem verdade que isso não seria possível sem sacrifícios. Não tardei a reconhecer que um trabalho, exigindo uma produção constante e regular, seria incompatível com os prazeres sociais. Quando jovens, a minha mulher e eu morávamos em Paris, apreciando bastante as coisas mundanas e as seus múltiplas atracções. Mas há 12 anos tornei-me morador de Amiens12, terra natal da minha mulher. Foi aqui que a conheci há 53 anos13 e, pouco a pouco, todas as minhas relações de amizade e os meus interesses se concentraram nesta cidade. Alguns dos meus amigos lhe dirão que me orgulho mais de ser conselheiro municipal de Amiens do que do meu renome literário. Não nego que desfruto muito do posto no governo municipal."

- Seguiu em alguma ocasião o exemplo de alguns dos seus próprios personagens, viajando por vários lugares do mundo?

"Sim, de facto sou um apaixonado pelas viagens. Em algumas ocasiões passava uma grande parte de cada ano navegando no meu iate, o Saint Michel. Posso dizer-lhe que sou devoto do mar e não posso imaginar nada mais ideal que a vida de marinheiro. Mas com a idade chegou um amor forte pela paz e quietude e… —adicionou o veterano novelista num tom triste- ...agora apenas viajo com a imaginação."

- Acredito que tenha associado os louros como dramaturgo a outros triunfos seus.

"Sim," —afirmou—"seguramente conhece que temos na França um provérbio que diz que um homem sempre acaba por regressar aos seus primeiros amores. Como lhe disse anteriormente, sinto sempre um deleite especial com tudo o que tem a ver com o mundo dramático; a minha estreia literária foi como dramaturgo e das tantas satisfações que recebi pelo meu trabalho, nenhuma me deu mais satisfação que o meu retorno ao teatro."

- Qual das suas histórias teve mais êxito no teatro?

"
Miguel Strogoff foi quiçá a mais popular. Foi a palco em vários lugares do mundo. Depois, A volta ao mundo em oitenta dias, teve muito êxito e mais recentemente Matías Sandorf foi representada em Paris. Posso dizer-lhe de que o meu conto O doutor Ox foi base de uma opereta representada no Teatro de Variedades, faz uns dezassete anos. Na época eu mesmo me encarregava de montar as minhas peças teatrais, mas agora o meu contacto com o mundo teatral apenas se limita a visitar o teatro da nossa cidade. Devo admitir que em várias ocasiões boas companhias de teatro nos têm honrado com a sua presença na cidade.

- Suponho —e dirigindo-me à senhora Verne—, que o seu esposo recebe muitas comunicações do seu imenso clube de admiradores ingleses de amigos e leitores desconhecidos.

"Sim" —respondeu com jovialidade— "e pedem muitos autógrafos! Gostaria de os poder ver. Se não estivesse aqui para protegê-lo dos seus amigos, passaria a maior parte do seu tempo escrevendo o seu nome em pedaços de papel. Suponho que são poucas as pessoas que receberam cartas tão estranhas como as que recebeu o meu marido. As pessoas escrevem sobre coisas de todo o tipo. Uns sugerem uma trama para uma nova história, outros desabafam os seus problemas pessoais ou lhe contam as suas aventuras ou lhe enviam os seus livros."

Cartaz publicitário das Edições Hetzel

 

- Em alguma ocasião um destes remetentes desconhecidos fez-lhe perguntas indiscretas sobre os planos para o futuro do senhor Verne?

O meu amável e cortês anfitrião respondeu por ela. "Muitos são muito amáveis por se interessarem sobre qual será o meu próximo livro. Se deseja saber essa curiosidade digo-lhe que ainda não anunciei a ninguém, excepto aos meus amigos íntimos. A minha próxima obra levará por título
A ilha de hélice. Contém um grupo de noções e ideias que têm estado na minha mente durante muitos anos. A acção terá lugar numa ilha flutuante criada pela engenhosidade de um homem; uma espécie de Great Eastern mas dez mil vezes maior e nela viajam o que pode ser chamado, neste caso, uma povoação móbil. É a minha intenção" —concluiu Verne—, "completar, antes que os meus dias de trabalho terminem, uma série que concluirá em forma de novela o meu estudo completo da superfície do mundo e os céus. Existem, todavia, lugares do mundo a que os meus pensamentos não têm chegado. Como sabe, tenho uma obra que trata sobre a Lua, mas ainda há muito por fazer, e se a saúde e força me permitir, espero terminar essa tarefa."

 

Navio Great-Eastern


Faltava ainda meia hora antes para que o veículo de caminho-de-ferro que faz a rota Caláis-Paris (uma vez tão eloquentemente descrita por Rossetti) partisse e a senhora Verne, com grande amabilidade, muito peculiar nas mulheres francesas bem educadas, me conduziu à catedral Notre Dame d’Amiens, na qual se podia ler numa pedra um poema do século doze14. Dentro das suas majestosas paredes o turista inglês tem a oportunidade de ver todos os domingos o ancião homem que com a sua pluma deu muitas horas felizes tanto a jovens como a adultos.

 

ANEXO

1 A casa de Jules Verne está situada no número 2 da Rue Charles Dubois.

2 É impossível que a senhora Verne tenha podido celebrar as suas bodas de ouro (cinquenta anos de matrimónio) em 1893, visto que o casamento de Verne se remonta a 1857. Fez sim nesse ano, trinta e seis anos.

3 Outro erro. Verne não têm 68 anos de idade, mas sim 65 no momento da entrevista.

4 A ilha de hélice a qual Verne desvendará o título mais à frente.

5 Outra afirmação curiosa. Entre Janeiro de 1857, data do matrimónio, e Janeiro de 1863, data da aparição da novela, apenas fez seis anos.

6 Esse nome designa a velha prisão de Edimburgo onde Walter Scott situou numa das suas novelas. Midlothain é a antiga cidade de Edimburgo, que é um condado situada na parte sudeste da Escócia. (Nota do tradutor)

7 Nome da parte montanhosa da Escócia, ao nordeste de Strathmore. Significa Terras Altas. (N do T)

8 Ilha escocesa situada ao sul do Arquipélago das Hébridas e ao sudoeste da ilha Mull. (N do T)

9 Arquipélago do Oceano Atlântico, próximo da costa ocidental da Escócia. Forma parte das Ilhas Britânicas e tem umas 200 ilhas. (N do T)

10 Rio de Inglaterra que nasce no condado de Gloucester, passa por Oxford e por Londres e desagua no mar do Norte. (N do T)

11 As obras listas são: A ilha de hélice, Um drama na Livónia, O soberbo Orinoco (que Verne cita numa carta a Hetzel Filho em Agosto de 1894) e a obra em curso é Em frente da bandeira.

12 Verne vive em Amiens desde 1871, portanto, há 23 anos.

13 Verne conheceu a sua esposa em 1856, ou seja, 38 anos antes de esta entrevista.

14 A construção da catedral começou no século XIII, em 1220 e terminou nos meados do século XIV.

 

Uma Visita a Júlio Verne

por 

Edmondo de Amicis

 

Entrevista publicada na revista Nuova Antologia em Março de 1897

Frequentemente citada, esta entrevista surgiu pela primeira vez em Nuova Antologia, em 1 de Novembro de 1896. Depois foi reproduzida em Memorie de De Amicis (Milão, Fratelli Treves, 1900). A visita teve lugar em 20 de Outubro de 1895. De Amicis estava acompanhado dos seus filhos. Ainda que esse relato fale pouco sobre Verne, De Amicis faz uma interessante descrição do autor, assim como da sua esposa.

 

Edmondo De Amicis
 

Encontramos J. Verne em Amiens, aonde permanece durante todo o ano, a duas horas e meia de Paris, por comboio. Uma carta escrita por ele a meu bom amigo Caponi assegurava-se que a sua recepção seria mais que amável, e essa certeza avivou ainda mais o meu velho desejo, e dos meus filhos que estavam comigo, de conhecer pessoalmente o amado e admirado autor das Viagens Extraordinárias. Nunca havíamos visto uma fotografia dele e, por conseguinte, era completamente desconhecido para nós, a não ser pelos seus livros. No caminho comentamos o curioso facto de que os leitores deste escritor francês tão celebrado, e que ainda vive, tenham tão pouca informação sobre ele, enquanto que de todos os demais escritores se conhece, com detalhe e abundância, sobre as suas personalidades e as suas vidas, tal como conhecemos as dos reis e dos imperadores. Este mistério aumentava a nossa curiosidade.

 Chegamos à porta de uma casa particular, situada na entrada de uma rua deserta de um bairro residencial que parecia deserto. Uma mulher abriu-nos a porta e fez-nos cruzar um pequeno jardim para depois entrarmos numa sala, no térreo, que estava cheia de luz. De repente, Júlio Verne surgiu, recebendo-nos com o rosto sorridente e os braços abertos.

 Se eu o tivesse conhecido sem saber quem era, e me perguntassem qual a sua profissão, teria dito que se tratava de um general condecorado do exército, ou de um professor de Física ou Matemática, ou quem sabe um chefe de gabinete de um ministério – mas nunca um artista. Não aparenta os seus quase oitenta anos[1], é da estatura de Giuseppe Verdi, com um rosto sério e amável, porém sem a vivacidade característica de um artista, nem no olhar, nem na palavra; os seus modos são muito simples, imprimindo uma grande sinceridade em cada um dos seus gestos, mesmo os mais fugazes de sentimento ou de pensamento; a fala, o porte, a maneira de se vestir, são as de um homem que considera as aparências algo que absolutamente não se deve levar em conta. A minha primeira sensação, depois do prazer em vê-lo, foi de estupefacção. Fora o olhar amistoso e o comportamento afável, nada podia reconhecer em comum do Verne que estava de pé diante de mim com aquele que eu havia imaginado. Voltaram à minha mente as palavras de um amigo de Turim, que um dia me disse, meio de brincadeira, meio sério:

Você vai conhecer Júlio Verne? Mas... Júlio Verne não existe! Você não sabe que as Viagens Extraordinárias são feitas por uma sociedade de escritores que tomaram esse nome como pseudónimo colectivo?” 

A minha surpresa aumentou quando, induzido a falar sobre as suas obras, comentou-as com ar distraído, como se o fizesse de textos escritos por outra pessoa, ou melhor, de coisas nas quais não via mérito algum, de uma colecção de selos ou moedas que havia adquirido e da qual se ocupava mais pela necessidade de fazer algo do que por pura paixão pela arte. Várias vezes, no início, tentou fazer a conversa girar sobre outro alguém, e não tendo êxito nisso, a fez recair amavelmente sobre os seus dois jovens visitantes. Porém, uma pergunta directa forçou-o a falar sobre o seu modo de conceber e escrever um romance, e o fez em poucas palavras, com grande simplicidade e admirável clareza.

 Contrariamente ao que eu havia pensado, a primeira coisa que faz não é imaginar os seus personagens, nem os factos que ocorrerão na história que está por escrever, para depois realizar as pesquisas sobre o país que será o cenário dela. Em vez disso, Verne primeiro lê sobre a história e a geografia dos países, como se tivesse como única intenção nada mais do que descrevê-los total e minuciosamente. Os seus personagens e os principais acontecimentos da narrativa vão tomando forma na sua mente durante a leitura, na qual não avança com a curiosidade fixa e o frenesi de um caçador de notas que serviriam para outra coisa, mas com o amor e o prazer de um apaixonado por esse tipo de estudo. Quanto aos conhecimentos variados que necessita e que nos seus livros são abundantes, tanto em Física, Química, Astronomia e História Natural, há muito que não precisa buscá-los nas obras científicas que foram as suas leituras favoritas desde a mais terna idade, seja porque os tem de memória ou por facilmente encontrá-los numa enorme quantidade de notas que actualiza em livros, revistas e jornais, sem descuidar daquelas referentes às viagens, descobrimentos, fenómenos, acontecimentos ou personagens singulares que pense que possa utilizar de uma maneira ou de outra em alguns dos seus futuros trabalhos.

J. Verne em 1896. 68 anos.

Com respeito à escolha dos países que servirão de cenário para as suas novelas, Verne guia-se por uma ideia que está muito distante da que imaginei. A sua intenção é a de descrever a Terra inteira, por isso vai de região em região, segundo uma ordem pré-determinada, jamais voltando sobre os seus passos, a menos que seja necessário e, mesmo assim, da forma mais breve possível. Todavia, ainda lhe faltam muitas partes do mundo para cobrir, e ele já estimou o número de histórias que deverá criar para conseguir o seu objectivo: “Terei tempo para todas elas?”, perguntou-se, sorrindo. Assim ele espera, da mesma forma que nós, e enquanto isso, não perde um só dia. Escreve regularmente dois romances por ano, mas só entrega um deles para impressão, de tal forma que não se juntem, visando ter sempre alguns guardados na gaveta[2]. Deita-se para dormir todas as noites por volta das oito. Levanta-se as quatro da manhã e trabalha até o meio-dia. Esta é sua rotina de vida, excepto quando viaja, e assim continuará a fazer até quando puder.

Necessito trabalhar” - concluiu – “O trabalho transformou-se numa função vital para mim. Se não trabalho, não me sinto vivo.

 Nesse momento, tivemos uma surpresa agradável: surgiu a senhora Verne. Imagine uma moldura de cabelos brancos sobre uma face redonda e rosada, dois grandes olhos claros sempre sorridentes, uma boca cheia de bondade e de doçura e terá o rascunho de um retrato. À singeleza do marido, agrega a vivacidade e a graça, à sua franca cordialidade, uma ingenuidade em palavras e em espírito; perceba os ligeiros sinais impressos sobre a sua face ainda florescente como sendo a obra do pincel de um miniaturista para enganar o mundo, e eis aqui o retrato completo. Falou-me da Itália, recordando a entusiasmada recepção que deram ao seu marido, particularmente em Veneza. “O senhor teve conhecimento?” – disse-se – “que iluminaram a fachada do hotel e escreveram o seu nome por baixo da varanda com lanternas?” Contou-me então a história de um homem que havia encontrado Verne em Nápoles – e que depois se soube ser um arquiduque da Áustria – para expressar-lhe a sua admiração sem dizer-lhe que havia enviado, desde Viena, uma das suas conhecidas obras históricas[3]. Disse isso com uma ponta de satisfação e surpresa, como se fosse a esposa de um escritor que apenas emergia das sombras, demonstrando um prazer inesperado devido ao renome do seu marido.

Verne dá provas desse mesmo desconhecimento da sua própria celebridade quando me pergunta: “Sabia que os meus livros são traduzidos em diversos idiomas?”. A sua esposa também faz-me saber que ele é, já há muitos anos, conselheiro municipal de Amiens e que desempenha essa tarefa com muita dedicação[4]. E Verne retornou a esse tema em diversas ocasiões, quase que querendo mostrar que falava mais à vontade de administração do que de literatura. Além disso, a senhora Verne duvidou que seria reeleito nas próximas eleições. E quando lhe perguntei, assombrado, a razão pela qual duvidava, respondeu em voz baixa, tornando-se grave: “A maré democrática, caro senhor, sobe, sobe por todos os lados”. Depois, ambos me descreveram a perfeita tranquilidade da sua vida provinciana, que acabou de transformar por completo as suas almas. Basta mencionar que nenhum dos dois vai a Paris há mais de oito anos. A sua maior distracção é ir ao teatro ou à ópera duas vezes por semana, e nessas tardes extraordinárias, para que a festa se complete, jantam juntos num hotel localizado em frente ao teatro como se fossem dois jovens casados em viagem de lua-de-mel. As caminhadas de lazer, as poucas visitas, a leitura, o trabalho em casa e o trabalho literário se fazem todos à hora precisa, como se seguissem um regulamento. Quem pensaria, por um só momento, que assim vivia o homem que havia imaginado tantas coisas maravilhosas e, principalmente, tantos personagens fascinados pela vida desordenada e cheia de agitação, deslocando-se de país em país como as andorinhas em busca de feitos imprevistos e de fortes emoções?

Honorine Verne

Mas, para conhecer melhor a bondade e a simplicidade que os caracterizam, e para dar uma boa ideia da sua vida calma e pacata, onde o menor detalhe se converte em objecto de curiosidade e de controvérsias, é necessário invocar um episódio muito encantador de nossa conversação que daria um excelente efeito numa comédia, como nota descritiva de “ambiente”.

 Logo depois de me haver censurado gentilmente por não os ter acompanhado no pequeno-almoço, perguntaram-me em que restaurante tinha ido. Eu não recordava o seu nome, nem tampouco o da rua onde está.

-  Vejamos... Que rua seguiu ao sair da estação ferroviária?

-  Desci tal rua, cheguei a um lugar, depois virei à esquerda.

Então, enumeraram-me uma série de nomes de restaurantes, descrevendo as suas localizações, entradas e particularidades. Mas nenhum correspondia ao meu.

-  Mas deve ser um deles... Afinal, qual é?

E discutiram entre eles: podia ser um, podia ser um outro; quem sabe, eu tinha esquecido algum indício importante?

-  Está seguro de ter virado à esquerda?

-  Absolutamente.

-  E quanto tempo havia caminhado antes?

Respondi e começaram novamente o seu raciocínio.

-  Há, em frente ao lugar, uma farmácia como essa ou como aquela?

-  Disse que havia estado num grande salão no térreo do restaurante?

-  Sim.

Mas era inútil, os outros detalhes não coincidiam. Perdiam-se. Torturavam as suas mentes como se estivessem diante de um enigma. Queriam encontrar a resposta a qualquer preço. Quem sabe não estávamos partindo do mesmo ponto?

-  Mas, lembra-se de alguma particularidade deste lugar de onde partiu?

Assim continuou a conversa, sem resultado, algo que visivelmente lamentavam.

-  Bem, pelo menos – disse Verne – se o visse de novo, o reconheceria?

-   Sem dúvida.

-   Bem, então nos indicará qual deles foi.

-   E assim – concluiu sua esposa – o mistério será esclarecido.

 Mas tudo aquilo foi dito com uma bondade que não saberia descrever. Poderia se dizer que se tratava de um pai e uma mãe a perguntar ao seu filho todos os detalhes da sua primeira viagem para reviver com ele todos os momentos passados em terras longínquas. Um mês de vida em comum com eles não me faria penetrar tanto nos seus corações, nem me teria unido tão afectuosamente aos dois quanto aquela conversa que eu ouvia a sorrir, com os lábios, entretanto, contraídos pela emoção.

 Verne quis que conhecêssemos toda a casa. Subimos ao primeiro andar[5]. Por todas as partes reinava uma elegância simples e austera. Não se encontrava em nenhuma parte o luxo em que poderia viver o autor das Viagens Extraordinárias ao qual somente os direitos autorais das obras teatrais baseadas em três dos seus livros haviam garantido uma grande fortuna. O seu estúdio era um cómodo singular, pois está destinado ao mesmo tempo ao trabalho e ao descanso, e é muito pequeno, uma espécie de cabine de comandante de navio. Num canto, de frente a uma grande janela, há uma grande mesa de trabalho coberta por uma toalha verde, coberta de livros e mapas ordenados simetricamente. No canto oposto, um pequeno leito, estreito e muito baixo, sem adornos, que pareceria modesto a um estudante. É sobre essa espécie de cama militar que dorme Júlio Verne, não sei desde quando, deitando-se pouco depois do pôr-do-sol até as primeiras horas do dia seguinte, tanto no Inverno quanto no Verão. O quarto, cheio de luz solar, e desde onde se vêem as torres da famosa catedral, dá para um largo e solitário corredor. Observei com muita curiosidade alguns dos manuscritos que estavam sobre a mesa. Haviam folhas cobertas com linhas densas, escritas com letras pequenas, porém firmes e regulares, com muitas poucas correcções. Depois de ter trabalhado com cuidado na preparação do seu texto e de ter pensado nele durante muito tempo, escreve-o rapidamente. Logo, a senhora Verne me retém por algum tempo enquanto os meus filhos entram com Verne na sua biblioteca, aproveitando a ocasião para me fazer em voz baixa, de uma forma cândida e amigável, uma súplica que me comoveu: “Trate um pouco, senhor, de persuadir o meu marido a zelar mais pela sua saúde. Ele trabalha demais. Sempre está ali, ali na sua mesa. Rezo para que não adoeça. Não vivo tranquila.” E soube por ela que a saúde de Verne tinha-se ressentido um pouco, alguns anos antes, por um triste incidente que eu ignorava: um dos seus sobrinhos, com problemas mentais, tinha-o atacado sem razão e feriu-lhe a perna com um disparo de arma de fogo, pelo qual permaneceu enfermo durante muito tempo. Foi depois deste acidente que ele vendeu o elegante iate com o qual havia viajado à Itália, ponderando que a necessidade de uma vida sem fadiga não lhe permitiria fazer novas viagens pelo mar[6].

 No quarto claro e espaçoso que limita com o estúdio há uma rica colecção de livros de viagens, de ciências e mapas. Numa secção estão ordenadas as traduções das obras de Verne, centenas de volumes de todos os tamanhos e formas, e em muitos idiomas, entre eles o árabe e o japonês, ainda que não houvessem traduções europeias. Depois, conduziu-nos à outra biblioteca, que contêm todas as suas obras em francês. “Oitenta volumes!” – disse sorrindo e sacudindo a cabeça como se dissesse “oitenta anos!”. Estavam dispostos em ordem cronológica e ocupavam uma grande estante, formando uma franja multicolorida, luminosa e gloriosa como uma série de bandeiras.

 Quantas recordações voltaram a mim ao ver todos aqueles livros, lidos com tanto prazer em minha infância e juventude, e aos quais retornei tantas vezes já como adulto, para relaxar ou aclarar a mente! Quantas lembranças queridas, projectos de viagens, grandes e estranhos sonhos que sobrevinham depois das minhas leituras, visões imensas de florestas, desertos e oceanos, misteriosas solidões interplanetárias e espantosos abismos marinhos e terrestres, cataclismos maravilhosos e formidáveis! Simultaneamente ressoaram na minha mente os nomes de Nemo, Hatteras, Fogg, Grant, Strogoff, Robur, Kurtis, de personagens misteriosos e terríveis, de inventores de máquinas prodigiosas, dos descobridores de mundos desconhecidos, vítimas e heróis de gigantescas lutas com a natureza, e vi por trás deles as figuras extravagantes, os tipos cómicos, singulares, engenhosos e divertidos de todos os países, de Ardán a Paganel, de Keraban a Passepartout e ao filósofo chinês das Atribulações, que me haviam arrancado muitas gargalhadas quando jovem e depois a inumerável multidão de personagens secundários de todas as condições e de todas as raças, todos marcados com uma pincelada de cores suaves, todos levados pelas rotas da terra, do mar e do céu, às entranhas do globo, às profundidades submarinas e aos espaços etéreos, através de milhares de aventuras trágicas, fantásticas e maravilhosas, sempre com um final feliz. Tudo escrito num estilo simples e prazeroso, colorido com um ligeiro toque de poesia que deixa ao espírito uma impressão sã da vida, um desejo de actividade física e intelectual, uma cobiça de estudar a natureza e entusiasmar-se pela Ciência combativa e determinada, e uma visão grandiosa e reconfortante dos destinos do Homem.

 E novamente me surpreendeu que todas essas minhas recordações haviam sido criadas na mente deste homem tão calmo e despretensioso, de vida comedida e fala tranquila, e me maravilhava com a extraordinária popularidade dos seus oitenta volumes difundidos pelo mundo inteiro, dessas centenas de criaturas saídas da sua imaginação e gravadas em milhões de mentes como se fossem pessoas vivas e familiares. A simplicidade com que respondeu à expressão desse meu pensamento pareceu-me ainda mais admirável e simpática: “Mas veja assim, esta enorme difusão deve-se, em grande parte, ao facto de que no meu trabalho sempre propus como meta, ainda que em sacrifício da Arte, a de jamais deixar escapar uma só página ou uma única frase que não pudesse ser lida pelos jovens, para quem escrevo e a quem amo”.   

 Pedi uma fotografia sua, sobre a qual ele assinou, como diria o meu amigo de Turim, o pseudónimo da sociedade colectiva que escrevia as suas obras. A sua esposa comentou que ele tinha esquecido a data e pedi, então, que ela assinasse também, para que eu pudesse ter o seu autógrafo. Ela sorriu sem entender se eu estava a falar sério, mas finalmente animou-se a escrever, não deixando de sorrir. Saímos então de casa, todos juntos, e a partir daquele momento Júlio Verne era simplesmente o conselheiro municipal da cidade de Amiens. Depois de visitarmos um centro equestre de propriedade municipal, próximo a sua casa, e onde tem lugar reuniões e festas públicas, deu-me muitos detalhes sobre os trabalhos de construção, as escolas e a demografia da cidade e fez-me perguntas sobre as administrações municipais na Itália. Nesse momento, pareceu-me que a sensação de que falava com um conselheiro de Turim, de férias na cidade, lhe dava prazer, a tal ponto, que tratei logo de dizer-lhe que as minhas férias eram perpétuas. Dirigimo-nos, então, ao centro da cidade. Como era domingo, encontramos muita gente. A senhora Verne detinha-se, por vezes, para trocar algumas palavras com pessoas que conhecia, e que se surpreendiam por vê-la fora de casa em hora inusitada; ela ria com a alegria de uma pessoa de saúde excepcional e logo corria para se unir a nós. E quando se encontrava a meu lado voltava à sua pergunta anterior e falava das raras qualidades do coração do seu marido, insistindo, como se duvidasse de que já estivesse persuadido: “Se soubesse como Júlio é bom e generoso”. “Eu sei” – respondi-lhe – “e creio que todo mundo saiba”. De facto, adultos e crianças de todas as condições que se cruzavam connosco saudavam-no respeitosamente, ainda que pudesse haver entre eles mais de um eleitor que, ao cumprimentá-lo, fizesse mentalmente a distinção entre o escritor e o conselheiro municipal. Fomos à Câmara Municipal – já havíamos visto a Catedral – e lá, Verne fez-nos visitar a galeria de arte[7] onde, como bom conselheiro, tomou nota de uma observação que fiz a propósito de uma dúvida minha sobre um verso de Dante inscrito em baixo de uma bela pintura moderna. Depois, conduziu-nos ao salão de debates e contou-nos a história do prédio, acompanhada de numerosos detalhes administrativos e políticos. Enfim, quando saímos, ambos disseram, quase ao mesmo tempo e com ares de quem acabou de lembrar uma curiosidade ainda insatisfeita: “Agora, só falta vermos aquele misterioso restaurante”. E partimos em viagem de exploração.

 No instante em que me detive no meio de uma rua, anunciando “É aqui!”, olharam-se com surpresa. “Ora, ora... Mas esse é o primeiro restaurante que mencionamos!” – disseram-me – “Bem se vê que ainda não conhece o lugar. Finalmente o encontramos, o problema está resolvido”.

 “Agora só falta comemorarmos a descoberta” – acrescentou Verne, e quis entrar para beber uma cerveja. Mas só tomou um gole, conforme a sua regra; já a sua esposa bebeu um bom copo, falando e gracejando com a jovialidade de uma menina. “Sabe que fazem uns quatro ou cinco anos que não venho ao café?” – disse-me ela. “Aqui as mulheres não têm o hábito de vir. Isso é um acontecimento para mim...” E por estar sentada junto a uma grande janela que dava para a rua, em algumas ocasiões, quando alguém passava pela calçada e a reconhecia, manifestava a sua surpresa e tirava o chapéu para saudá-la, que ria e dizia ao marido: “Fulano passou, e também beltrano. Surpreendeu-se ao ver-me no café!” E Verne parecia divertir-se com a vivacidade da sua mulher, ainda que não tenha feito um só gracejo nem expressão de hilaridade – apenas um sorriso breve e amistoso – nem demonstrado a veia cómica que flui tão bem nos seus livros. Porém, sua pessoa aparecia melhor nessa gentileza sem artifícios, toda no seu olhar e na sua voz, e nessa benevolência que ele escondia, mas que eu tratava de imaginar! E fiquei a olhar os dois, e ao meu pensamento veio uma impressão que ocorre a todos, essa de reviver nesse momento, sem que nada haja mudado, um instante de um tempo passado. Pareceu-me (e foi uma ilusão tão viva que senti um estupor) ter estado alguma outra vez em Amiens, ter vindo anteriormente a esse café com Júlio Verne e sua esposa, e tê-los conhecido em pessoa já há muitos anos, e ter vivido durante muito tempo nessa aprazível casa na sua doce e grata companhia, como um velho amigo que nada mais tem a conhecer do seu coração e da sua vida.

 E, sob as marquises da estação até onde tiveram a gentileza de acompanhar-nos, disse-lhes com quanta emoção os deixava, e que guardaria uma inesquecível lembrança daquele dia, e lhes disse isso com aquela entonação que a eloquência não encontra, pois vi humedecer os seus bondosos e sorridentes olhos, e os meus filhos e eu sentimos no seu abraço tudo aquilo que pusemos nos nossos. E essas duas imagens se mantiveram presentes até que as mil luzes e o alvoroço da estação do Norte nos despertaram como de um belo sonho.

 ANEXO

 

1- No momento da entrevista, Verne contava 67 anos.

2- A gaveta da mesinha é, com efeito, o local onde Verne deixava os romances escritos antes de começar a revisá-los. Comentou com Hetzel sobre esse facto em muitas ocasiões, como por exemplo, em 29 de Dezembro de 1894, numa carta em que lhe diz: “Acabo de terminar um dos meus romances de 98! Bem, acabado, não, porque ainda terei alguns meses de trabalho. Mas deixarei-lo repousar, pelo menos, por seis meses”. Em 1895, o autor tem uma vantagem de três a quatro anos sobre o seu contrato.

3-  A viagem à Itália ocorreu em 1884 e é em Nápoles que Verne se encontra com o arquiduque Louis-Salvator de Habsbourg. A sua obra sobre as ilhas Baleares será citada em Clóvis Dardentor (1896). O seu irmão, Jean-Salvator, renunciou aos seus títulos em 1889, depois do drama de Mayerling e abandonou a Áustria sob o nome de Jean Orth. Desapareceu num naufrágio em Agosto de 1890, nos arrecifes do cabo Horn. O seu curioso destino é, sem dúvida, a origem do personagem Kaw-Djer em En Magallanie, que Verne elabora entre 1890 e 1891, escreve entre 1897 e 1898, revisa entre 1903 e 1904 e só é publicada em 1909, com o título Os Náufragos do Jonathan, numa versão modificada pelo seu filho Michel Verne. 

4-  Verne foi eleito conselheiro municipal desde 1888.

5-  É no segundo piso que estão localizados o estúdio e a biblioteca de Verne.

6-  Na verdade, foi em 9 de Março de 1886 que Gaston Verne, no meio de uma crise de paranóia, fere o seu tio com um disparo de revólver. Porém, Verne já tinha vendido o seu iate um mês antes, em 15 de Fevereiro de 1886, certamente por razões financeiras.

7-  As pinturas citadas foram objecto de uma intervenção de Verne no Conselho Municipal na sua sessão de 13 de Maio de 1891. Ali, debateu-se a sua eventual transferência para um museu.

Tradução para português: Carlos Patrício

 

O jornalista Adolphe Brisson visitou Verne nos finais de 1898.

A sua entrevista, primeiramente publicada na Revue Ilustrée, em 1 de Dezembro de 1898, foi reimpressa de forma um pouco diferente em Portrait Intimes, Quatrième série (Promenades et visites) publicada em Paris por Armand Colin et Cie, Editeurs, em 1899 (pg.111 a 120).

O texto publicado nessa última edição é o que se reproduz a seguir:

 

Tive a ideia, com a chegada do Ano Novo, de ir visitar o senhor Júlio Verne. Devia-lhe essa prova de reconhecimento pelos bons momentos que me fez passar. Sempre tive grande curiosidade em conhecer e entrevistar este autor, cujas ideias surpreendentes cativaram milhões de jovens franceses. Haviam-me assegurado que nunca abandonava a cidade de Amiens, onde estabeleceu a sua residência. Comuniquei-lhe o meu desejo e recebi rapidamente uma amável resposta, marcando o encontro.

“Não sou mais do que um provinciano” – disse-me em essência o senhor Júlio Verne – “mas conheço bem a minha província. Mostrar-lhe-ei a nossa querida catedral”. No dia marcado, cheguei à velha cidade e informei-me acerca do local onde vivia o escritor. Quando o funcionário da estação ferroviária, ao qual solicitei essa informação, soube com quem ia encontrar-me, adoptou uma atitude respeitosa e percebi, baseado no seu procedimento, que o pai de Miguel Strogoff goza na cidade da mais alta consideração e que a sua popularidade se iguala, no mínimo, às construções góticas, às telas de Puvis de Chavannes e aos famosos patês de pato dos quais se orgulha, e com toda razão, a capital da Picardia. “Rua Charles Dubois, uma bela casa com um muro e um portão; é só seguir a rota da via férrea” – disse-me o rapaz.

O toque da campainha alterou a quietude da Rua Charles Dubois. A porta se entreabre e me encontro no meio de um pátio arenoso, que se prolonga à esquerda num sorridente jardim. À minha frente, vejo uma reluzente cozinha, de cor acobreada brilhante, e de onde exalam suaves aromas. À direita, um portão fechado, em forma de serra. Alguém se apressa e desce pelos degraus de uma escada. É ele... o senhor Júlio Verne será septuagenário em breve, tendo nascido na primavera de 1828; carrega com viço o peso da idade, e se um antigo acidente deixou a sua perna sem movimento, o seu espírito conserva uma vivacidade juvenil. Entro na sala, aonde chega a senhora Verne para unir-se a nós, e me sento rapidamente, acolhido por toda essa simpatia. A senhora Verne faz, com graça, as honras da casa e guia-me até um pequeno cómodo onde a mesa para o almoço está servida.

“A nossa sala de jantar é muito grande; comemos aqui, os dois juntos. Pusemos talheres para o senhor” - disse-me a senhora Verne.

Verne alimenta-se com ovos e verduras, tal como fosse um vegetariano. A senhora Verne tem um apetite de passarinho. Enquanto eu, por cortesia e também por gula, me apresso a provar todas as delícias que prepararam somente para mim. Os meus anfitriões falam-me do presente e do passado, da cidade amienense e das recordações já distantes de Paris. Júlio Verne foi eleito conselheiro municipal; e é um conselheiro muito cuidadoso, que nunca falta às sessões do Conselho. A senhora Verne divide o seu tempo entre os deveres da caridade e o prazer do teatro; possui uma luneta que raramente está desocupada e desfruta dos numerosos espectáculos que o empresariado reserva aos seus associados e que se compõem, pelo menos, de doze a quinze actos variados. Na manhã seguinte, às cinco horas, Júlio senta-se no seu escritório. A sua existência transcorre sem preocupações, sem arroubos, entre esses entretenimentos e os seus trabalhos. E assim, já faz meio século que dura essa quietude, e esperam que nenhum acidente venha a alterá-la e que morram também de forma tão tranquila quanto têm vivido. Apenas duas horas separam Amiens de Paris, mas eles não sentem desejo de subir num comboio para contemplar do topo da torre Eiffel.

Estamos bem aqui!” – exclama Verne, rindo. “O ar que aqui se respira é saudável, acalma os nervos e fortifica o cérebro... além disso, se soubesse quão pouco ambicioso sou!

Observo o senhor Verne enquanto se expressa dessa maneira. Assombra-me a extrema doçura disseminada nos seus traços. Quase ruboriza de timidez. Este homem, que imagina tantas aventuras extraordinárias, não se parece em nada com os seus heróis, nem com o capitão Hatteras, que descobriu o Pólo, nem com Michel Ardan, que viajou à lua, nem com o capitão Nemo, que percorreu o fundo dos mares, nem com Hector Servadac, nem com o rápido Phileas Fogg. Tem olhos azuis muito ternos, uma voz discreta, gestos atentos e medidos, o passo de um engenheiro ilustre que não sai de seu escritório, ou de um dignitário da administração das finanças...1

“Sim, querido senhor, renunciei a Paris. Por isso, tenho sentido profunda satisfação!”

Entro aqui no campo das confidências. Conduzo-me ao seu quarto, que não é maior do que a cabine de um barco, mas que recebe luz de duas grandes janelas sem cortinas. Atiça o fogo e oferece-me um charuto, que vem de Havana, e que o fabricante baptizou com o título de um dos seus romances, O Raio Verde.

Começa a contar-me a história do seu início nas letras. Era estudante; havia composto uma meia dúzia de tragédias quando deixou a Bretanha para a capital, onde contava vagamente fazer fortuna. Tinha um gosto medíocre para o Direito, mas amava a música e a poesia. O senhor de Arpentigny, célebre quiromante, apresentou-o a Alexandre Dumas. De Brehát abriu-lhe as portas do editor Hetzel. Percorreu um duro caminho até chegar a ser renomado. O senhor Júlio Verne escreveu, em colaboração com Dumas filho, uma obra intitulada Les pailles rompues, que foi representada, sob os auspícios de Dumas pai, no Teatro Histórico, e recebeu honrosa aceitação. Trabalharam na obra nos jardins de Monte Cristo, de onde viam chegar, no momento das refeições, os famintos convidados. Dumas descia à oficina e preparava, entre dois capítulos do folhetim, uma rápida maionese. Faltavam pratos, algo que não parecia surpreender os convivas; porém, a champanhe borbulhava, as mulheres estavam alegres e nenhuma reclamava de ser obrigada a beber no mesmo copo que o seu vizinho. Nomeou-se o senhor Verne, sob a direcção de Emile Perrin, como secretário principal do Teatro Lírico; não tocou em pagamento, mas tinha a satisfação de encontrar a cada dia autores e compositores ilustres como Scribe, Adolphe Adam, Auber e Clapisson; propunha encadernar os folhetos das óperas cómicas e das óperas. Enquanto isso, escrevia breves contos, imitando Edgar Allan Poe, benevolamente impressos no Musée des familles. Um deles, Um Drama nos Ares, recebeu críticas favoráveis. Era sobre um louco, embarcado por engano na barquinha de um aeróstato, e que procurava matar o seu companheiro de viagem. Percebendo que os balões lhe davam sorte, escreveu a sua primeira novela, Cinco semanas num Balão, que obteve uma aceitação categórica. Júlio concebia grandes empreendimentos, aspirava triunfar como Balzac e queria sacudir, até os alicerces, a sociedade moderna, com a audácia e a crueza dos seus escritos. O seu editor, o senhor Hetzel pai, interveio e fez-lhe um discurso cheio de sabedoria:

"Meu rapaz” – disse-lhe – “acredite na minha experiência. Não desperdice as suas forças. Acaba de fundar um género, ou ao menos resgatá-lo de maneira profunda, um género que parecia esgotado. Trabalhe sobre essa linha que a sorte ou sua genialidade natural fez-lhe descobrir. Assim, ganhará muito dinheiro e glória, com a condição de não desviar-se do caminho a percorrer. Eis aqui a proposta: dê-me dois romances por ano. Firmamos contrato amanhã...”

Retrato de Pierre-Jules Hetzel - editor do escritor.

J. Verne assinou o contrato, e nunca deixou de observar as suas cláusulas. A sua produção é tão regular quanto a das macieiras do seu país; é simplesmente mais abundante, posto que dá, na Primavera e no Outono, colheita dobrada. Nenhum acidente jamais a interrompeu. A guerra e a revolução oprimiram a França, mas não conseguiram arrancar a pluma desta mão brava e incansável. O sexagésimo sétimo volume do senhor Verne acaba de surgir2. O sexagésimo oitavo florescerá com as rosas, o sexagésimo nono estará maduro com as uvas, e se Deus assim permitir, o centésimo, daqui há uns doze anos, coroará a série. Nesse dia, os monumentos de Amiens serão exibidos e, sem dúvida, também as revistas do senhor Hetzel, que devem a essa assombrosa fertilidade a maior parte das suas riquezas.

Quando felicito o escritor pela sua actividade, me responde com simplicidade: “Não há motivo. O trabalho para mim é a fonte do único bem-estar verdadeiro. Desde que termino um dos meus livros, sinto-me mal-humorado e não descanso até que começo o seguinte. A ociosidade é, para mim, um suplício.” As suas ocupações são regulares e imutáveis. Levanta-se na aurora, trabalha até as onze. Vai, logo depois do almoço, à sede da Sociedade Industrial, onde estão instaladas as salas de leituras; ali, se acerca dos jornais e revistas, que lê numa ordem que se esforça para não alterar, Le Figaro sucedendo a Le Temps, Le Galois a Le Figaro. Seria penoso para ele renunciar a esse método, a sua diversão seria alterada. Nos dias em que o Conselho se reúne, Júlio Verne vê-se privado das suas leituras, porque assume com uma consciência admirável os deveres municipais. Assim transcorre, com uma serenidade algo claustral, a vida deste literato, que foi um infatigável criador de aventuras ficcionais. De onde surgem os seus temas, e de que maneira os introduz na sua obra? O senhor Verne não demora em satisfazer a minha curiosidade sobre esse ponto. E o faz não sem uma certa vaidade, e essa afirmação que lhe escapa parece responder a uma crítica que devem lhe fazer (pergunta-se o mesmo a todos os escritores de extensas produções):

Não pense que as minhas obras são improvisadas. Custam-me um esforço considerável. Reescrevo-as e as revejo muitas vezes antes de entregá-las à impressão”.

Mostra-me o seu manuscrito actualmente sendo revisto. Cada capítulo é embaçado por numerosas observações e notas relativas ao carácter dos personagens e ao diálogo. Este é um primeiro rascunho que o autor repassa a tinta, modificando-o em algumas das suas partes. Porém, só começa essa tarefa depois de ter decidido a cena e encontrado o seu desenlace, que é a questão mais importante. Para que um romance agrade é necessário que o seu desenlace seja, afinal, optimista e engenhoso, e que o jovem leitor não o tenha previsto facilmente. As tardes do senhor Verne na Sociedade Industrial resultam, por esse ponto de vista, de preciosa ajuda. São suficientes uma notícia qualquer, um telegrama, um eco, para sugerir-lhe novas e inesperadas inspirações. Foi a partir de um anúncio da agência Cook que surgiu o argumento para A Volta ao Mundo em Oitenta Dias. Quando o seu plano está determinado, começa a pesquisa em todos os livros relacionados com a parte da Terra aonde o drama vai se desenrolar, e penetra na Geografia de Elisée Reclus3. É a fase trabalhosa da gestação. O resto não é mais do que um jogo...

“Devo a George Sand4 um de meus êxitos populares. Ela animou-me a escrever Vinte Mil Léguas Submarinas. Quero lhe mostrar a carta que me enviou em 1865”.

Júlio Verne é cuidadoso demais para procurar em vão uma missiva. As milhares de cartas que lhe chegam desde os quatro cantos do planeta são classificadas com extremo rigor, e ele vai directamente àquela da senhora de Nohant que, como verão a seguir, foi escrita em termos muito formais:

“Agradeço ao senhor pelas maravilhosas palavras escritas em duas encantadoras obras que conseguiram distrair-me de uma profunda dor e me fizeram suportar a ansiedade. Só tenho uma aflição ao que lhes concerne, é a de havê-las terminado e não possuir uma dúzia de outras para continuar a ler. Espero que logo volte a nos conduzir pelas profundezas do mar e que faça viajar os seus personagens nesses aparatos submersos que apenas a sua ciência e imaginação podem aperfeiçoar. Quando Os Ingleses no Pólo Norte5 forem publicados num volume, peço-lhe que os envie para mim. O senhor tem um imenso coração para realçá-lo. Mil vezes obrigado pelos momentos felizes que me fez passar no meio dos meus tormentos. G. Sand”.

Soaram as duas horas no campanário da vizinhança. O meu anfitrião propõe-se a guiar-me pelas curiosidades de Amiens, e insiste para que eu não recuse essa oferta cordial. Ao chegar ao portão da rua, vejo um planisfério, pendurado no muro e pintado com linhas de diversas cores. “Queria divertir-me”- disse-me Verne – “indicando sobre este mapa o percurso de todas as viagens efectuadas pelos meus heróis. Porém, vi-me obrigado a renunciar. Não me reconhecia mais.” Pude ver, ordenadas numa biblioteca, as traduções das obras de Júlio Verne. Todas as línguas estavam ali representadas. A Ilha Misteriosa em japonês, Da Terra à Lua em árabe, com as ilustrações da edição de Hetzel! O escritor pode navegar por todas as latitudes que seguramente encontrará a sua prosa em qualquer livraria – e até em países em que não existem livrarias!

J. Verne na sua biblioteca

Caminhamos um ao lado do outro, com pequenos passos, pela rua deserta. E não pude deixar de expressar a Verne a surpresa com que constatei a sua índole sedentária. É possível que um homem que descreve tão perfeitamente o globo terrestre não tenha desejado explorá-lo, recolhendo suas informações no próprio local em vez de tomá-las dos livros?

 Então, confessa-me ter possuído há algum tempo um pequeno iate, o Saint Michel, com o qual navegou o canal da Mancha e o Mediterrâneo.

- E não foi mais longe?

- Meu Deus, não!

- Não viu os antropófagos?

- Cuidei para não fazê-lo!

- Nem aos chineses?

- Tampouco.

- Nem deu a volta ao mundo?

- Nem a própria volta ao mundo!

Se o senhor Júlio Verne não buscou a emoção das viagens perigosas, pelo menos praticou os desportos de nações civilizadas, como a caça, a pesca, a equitação, o pólo e o futebol? Confessa-me, ingenuamente, que a pesca sempre lhe pareceu algo bárbaro e que a caça lhe inspira horror. Só foi à caça numa ocasião e disparou no chapéu de um polícia, que o levou à esquadra. E jurou nunca voltar a caçar.6

Durante muito tempo erramos pelas ruas da cidade. Às três horas, exactamente, o senhor Verne entrou, como seu costume, na confeitaria onde lhe reservam, para este instante da tarde, o seu copo de leite quotidiano. Acompanhou-me à igreja e ao museu onde estão as belas telas de Puvis; seduziu-me pela sua extrema bondade, pela solidez e variedade dos seus conhecimentos, pela agudeza do seu raciocínio e não cessou um instante de confundir-me: quando eu o seguia, não faz muito tempo, nas suas andanças ao redor dos sóis e dos planetas, ao centro da Terra, aos campos submarinos do Atlântico, entre as algas e os peixes monstruosos, imaginava o autor destes prodígios sob a aparência de um gigante, dotado de um vigor e de uma agilidade sobre-humanas. Esse conquistador é um bebedor de leite, um sonhador delicado, um filósofo ameno e um perfeito conselheiro municipal.

E pretende-se que os escritores se revelem nos seus livros!

 

 ANEXO

1 No texto publicado na Revue Ilustrée, Brisson adiciona: “E me surpreendo com a sua baixa estatura”.

2 Trata-se de O Soberbo Orenoco, publicado em 1898. Os dois volumes seguintes serão os de O Testamento de um Excêntrico.

3 Elisée Reclus (1830-1905), geógrafo e pensador anarquista francês que participou do debate político e social do século XIX.

4 Pseudónimo de Amandine Aurore Lucie Dupin, baronesa Dudevant. Novelista francesa, participante do movimento romântico, cujo estilo de vida anticonvencional e os seus numerosos amores escandalizaram a sociedade parisiense. Nasceu em 1804 e morreu em 1876.

5 Trata-se do primeiro volume de As Aventuras do Capitão Hatteras, surgido em Maio de 1866, após ter sido publicado em capítulos na Revista de Educação e Recreação de 1864 a 1865 sob esse título.

6 Os acontecimentos desse dia são narrados no conto Dez Horas de Caçada.

Tradução para português: Carlos Patrício

 

Uma nova visita a Júlio Verne

por

Robert H. Sherard

Entrevista publicada no jornal T.P.’s Weekly no dia 9 de Outubro de 1903.


Esta entrevista é uma das mais conhecidas. Os estudiosos vernianos referem-se a ela constantemente e tem sido reproduzida em múltiplas ocasiões, tanto nos estados Unidos quanto na Europa. Surgiu no jornal T.P.’s Weekly no dia 9 de Outubro de 1903.
O jornalista Robert Sherard já tinha visitado Verne em Amiens, pela primeira vez em 1889, acompanhado de Nellie Bly, a mulher que havia tentado repetir o feito de Phileas Fogg.
Uma segunda vez em 1893, quando realizou a entrevista publicada em Janeiro de 1894 no McClure’s Magazine. E foi um rumor que corria o que o levou pela terceira vez a Amiens. A entrevista que aqui se reproduz tem como objectivo assegurar aos leitores, cerca de um século depois, o prazer de desfrutar o testemunho do único jornalista que visitou Verne por três ocasiões.

 

Robert Sherard

Durante o mês passado certos rumores têm alarmado um grande número de seguidores, em todo o mundo, da obra de Júlio Verne. Diz-se que está quase cego. Sabemos que para ele viver é trabalhar, ainda que seja um homem muito idoso e a sua situação actual pareça extremamente precária.

Recuperei o fôlego ao saber que as coisas não andavam tão mal como eu temia. É certo que um dos seus olhos já não pode ver, mas ainda consegue ver um pouco com o outro.

É uma catarata no meu olho direito” – disse-me essa manhã, na sala da sua casa, situada no número 44 do Boulevard Longueville, na cidade de Amiens – “mas o outro olho ainda está em boas condições. Não quero arriscar-me numa operação, porque ainda posso ver o suficiente para fazer um pouco do meu trabalho diário, escrever um pouco e ler por alguns instantes. Lembre-se que sou um homem velho, já passei dos setenta e seis anos. Desde que as notícias dos meus problemas de visão foram dadas, as mais simpáticas manifestações à minha pessoa têm surgido de todas as partes do mundo. Muitos enviam-me maravilhosos remédios para as cataratas. Eles pedem-me para que não opere, que esses medicamentos me curarão sem perigo. São muito amáveis. Tenho tido muitas emoções por esses dias, mas sei, evidentemente, que uma operação é a única esperança de cura”.
 


 

Sala da sua casa na Boulevard Longueville

 

 

Uma vida caseira e confortável
 

Não via Júlio Verne há quase catorze anos. A última ocasião em que me encontrei ao seu lado foi quando lhe apresentei Nellie Bly e a levei à sua casa, logo depois que ela terminara a sua famosa volta ao mundo com o objectivo de quebrar a marca dos mágicos oitenta dias. Ainda assim, não o encontrei tão envelhecido quanto eu esperava. Parecia sentir-se bastante confortável, agasalhado no seu traje negro e o seu bonito rosto, pelo qual se estendia a barba de cabelos brancos, luzia ora sereno ora animado, dependendo do momento. O seu olhar magnífico não mostrava de modo algum o mal que o ameaçava.

Está a morar agora numa casa menor, porém opulenta e valiosa, e uma confortável vida caseira o rodeia. Enquanto conversamos e ele admite alguma desvantagem pessoal devido às circunstâncias e à inevitável lei da Natureza, apressa-se, sempre com a sua alegria natural, a tratar de achar alguma compensação.


 

Anos de vantagem sobre seus editores
 

Ainda que podendo trabalhar muito pouco – realmente muito pouco, se compararmos com épocas anteriores – tenho uma vantagem de vários anos com respeito ao meu contrato. O meu livro mais recente da série Viagens Extraordinárias deve ser publicado em breve, sob o título Bolsas de Viagens(1). Enquanto isso, existem outros treze manuscritos completos da mesma série que estão prontos para serem impressos. Como sabe, publico dois volumes por ano, que aparecem primeiro em capítulos no Magasin d’Èducation et de Recréation, do qual sou um dos fundadores. Estou a trabalhar neste momento na minha nova história, que não será impressa antes de 1910(2). Estou muito à frente, tenho muita vantagem. Por isso, não importa tanto que hoje trabalhe mais devagar, bem lentamente. Levanto-me, como de costume, às seis da manhã e fico a trabalhar no meu escritório até as onze. Às tardes, como sempre fiz, vou à sala de leitura da Sociedade Industrial e leio tanto quanto os meus olhos permitam.
 


Histórias sem títulos

 

Não posso dizer-lhe qual o título do livro que estou a escrever agora. Ainda não o sei. Tampouco tenho título para nenhuma das outras treze histórias que estão a esperar a sua hora. Tudo o que posso dizer sobre o meu último trabalho é que é algo sobre um drama na Livónia e que tenho incluído nele... bem, não, não deve escrever sobre isso no seu artigo, porque outro autor poderia tomar-me a ideia...(3)
 

Era inevitável, então, que falássemos sobre Herbert George Wells.
Sabia que ia pedir-me que falasse sobre esse tema” - disse - “Enviaram-me os seus livros, e eu li-os. É algo muito curioso, e devo acrescentar que é muito ao estilo inglês. Porém, não vejo possibilidade alguma de comparação entre o seu trabalho e o meu. Não trabalhamos da mesma forma. As suas histórias não repousam em bases científicas. Não, não há nenhuma relação entre o seu trabalho e o meu. Eu faço uso da Física, ele a inventa. Vou à Lua num projéctil, disparado de um canhão. Não há aqui invenção alguma. Ele vai a Marte numa aeronave feita com um metal que anula a lei da gravidade. Tudo muito bonito, mas” – diz Verne, animadamente – “mostre-me esse metal. Que ele o fabrique”.

 

 

Retrato de H. G. Wells
 

 

A ficção transformada em realidade


Também foi inevitável que eu me referisse ao facto de que muitas das suas invenções na ficção se converteram em realidade. Nesse momento da conversação a amável senhora Verne estava de acordo comigo.

As pessoas são suficientemente gentis para dizer que assim se passa” – disse Verne – “Estão a lisonjear-me, mas isso não é absolutamente correcto”.
Não seja modesto, Júlio” – disse-lhe sua esposa – “E os teus submarinos?
Não há relação” – responde Verne, rechaçando a adulação com um gesto.
Sim, há” - replicou a senhora Verne.
Não. Os italianos inventaram um submergível sessenta anos antes de Nemo. Não existe conexão entre o meu submarino e os que existem agora. Estes últimos trabalham mecanicamente. O meu herói, Nemo, que é um misantropo que não deseja nada que venha da terra, toma a sua força motora e produz a electricidade que necessita tendo como fonte o mar. Há base científica para isso, pois o mar contém elementos que produzem a energia eléctrica, assim como a terra tem os seus. O facto é que ainda não foi descoberto como se utilizar essa força, portanto não inventei nada.

 


 

O Nautilus de Verne


Os nomes na ficção

 

Abordamos em seguida o assunto da importância dos nomes nos seus romances.
Sim, concedo-lhes uma certa importância” - disse - “
Quando encontrei o sobrenome Fogg, senti-me satisfeito e orgulhoso
(4). Foi um grande êxito. Considerei um verdadeiro achado, porque a palavra fog significa “névoa, neblina” em inglês. Porém, foi especialmente o nome do personagem, Phileas, o que deu maior valor à criação. Sim, os nomes têm uma certa importância. Veja, por exemplo, como Balzac baptiza os seus personagens tão maravilhosamente.”
 

Tínhamos começado a nossa conversa nos ricos salões da sua residência, dois cómodos consecutivos, depois a sala de jantar e lá fora, um jardim cheio de flores, todo ensolarado. A casa era composta por opulentos quartos, com pesadas cortinas de veludo, grandes relógios e espelhos, retratos de corpo inteiro, cristais venezianos e nenhuma mesquinhez.
 

Naturalmente chegara a hora de subirmos as escadas para assim chegarmos aos aposentos de trabalho do escritor, que eram: um para leitura, onde estava a maior parte da sua biblioteca; e o outro para escrever, onde havia uma pequena mesa, uma caneta e a tinta.
 

 

Sem luxo


Tudo é muito simples aqui. Não há luxo. Vêem-se mapas nas paredes e, no quarto que o autor usa para escrever, podem-se ver vários quadros, entre os quais, uma aquarela com a imagem do Saint Michel, o iate com o qual, nos dias livres e ensolarados de sua inquieta juventude, Júlio Verne navegava pelas águas do mundo.

Começamos, então, a falar sobre a sua produção e eu disse-lhe, de modo bem americano, que ele devia ter escrito, pelo menos, uns bons três metros de livros. Ele riu calorosamente e fingiu medir a estante.

Oh, sim” - disse ele – “Já escrevi pelo menos três metros. Veja também todos esses metros de traduções para o inglês, dinamarquês, italiano, enfim, todos os idiomas”.

Oito grandes prateleiras estavam cheias de livros com o mesmo nome em todas as capas.

Na penumbra do quarto ao lado, localizado junto à janela, encontra-se uma pequena mesa de madeira branca, sobre a qual quase todos os seus livros foram escritos. Atrás do assento, pendurado na parede, encontra-se um cachimbo.

Mas eles não me deixam fumar, agora” – lamentou Verne, com o mesmo tom com o qual George Meredith disse algo similar numa ocasião, entristecido pela mesma causa.

Nesse quarto estão os meus livros favoritos, aqueles que mais uso. Aqui encontrará toda a obra de Dickens” - disse Júlio Verne, com voz entusiasmada – “Como sabe, sou um apaixonado admirador de Dickens. Creio que possuía todas as qualidades: a inteligência cheia de humor de Sterne, do qual também sou grande leitor e admirador, toda a sensibilidade e nobres sentimentos e personagens, excelentes personagens. Era um escritor pródigo, tal como nosso Balzac, que criou um mundo sobre o qual se modelou a sociedade das gerações que se seguiram”.
 

Se alguém viesse a essa casa para sentir pena, seria em vez disso com inveja que voltaria ao cinzento e solitário mundo exterior. Pois além das cortinas de veludo estava a mesa sobre a qual se achavam dois lugares frente a frente, próxima à janela iridescente que dava para os jardins cheios de sol e flores. E diante da lareira esculpida, sobre a qual o samovar, rubro e resplandecente, sibilava a sua nota de conforto e intimidade familiar, duas poltronas estavam postas lado a lado.
 

ANEXO
 

1. Bolsas de Viagens foi publicada no Magasin d’Education et de Recréation de Janeiro a Dezembro de 1903 e em livro em 1903 pela companhia editora Hetzel.

2. Trata-se do volume Viagem de Estudos, que se converterá em A Extraordinária Aventura da Missão Barsac em 1919. Os outros treze livros terminados são: Um Drama na Livónia (num 1 volume), A Agência Thompson & Cia. (2), Os Náufragos do Jonathan (2), O Segredo de William Storitz (1), O Vulcão de Ouro (2), O Piloto do Danúbio (1), O Farol do Fim do Mundo (1), A Caça ao Meteoro (1), A Invasão do Mar (1) e O Senhor do Mundo (1).

3. Um Drama na Livônia foi publicado no Magasin d’Education et de Recréation de Janeiro a Junho de 1904, e como livro em Julho do mesmo ano.

4. Verne, sem dúvida, teve a inspiração para o nome Fogg na novela de Dickens, As Aventuras de Mr. Pickwick.

Tradução para português: Carlos Patrício

 

Júlio Verne em casa
por

Gordon Jones

 

Publicado em Temple Bar. Número 129. Junho de 1904: páginas 664-671.
Este texto de Gordon Jones apareceu pelo título Jules Verne at home em Junho de 1904.


Tinha escrito desde Paris pedindo ao veterano escritor a honra de uma entrevista e foi com muito agrado que no meu regresso a Amiens me esperava um cartão com esta simples inscrição "Amanhã quinta-feira às dez da manhã." De acordo com a hora programada, apresentei-me na sua residência situada no nº 44 da Boulevard Longueville, uma casa grande, mas modesta, tipicamente francesa com pesadas janelas. Ao dar o meu nome à criada, fui guiado imediatamente até à sala onde o esperei.

Uns minutos depois, o senhor Verne entrou e depois de umas educadas palavras de boas-vindas sentou-se numa grande poltrona e amavelmente começou a conversação.
Fisicamente, o autor
Cinco semanas em balão é um homem bem forjado, estatura um pouco abaixo da média, o seu olhar azul e simpático e uma curta barba prateada. Sempre vestido com um modesto traje negro e quando está em casa usa um boné pontiagudo de tecido fino, o que é necessário devido aos frequentes ataques de um velho inimigo: o reumatismo.

Não há sobre a sua pessoa o menor vestígio de ostentação. É singularmente reservado nas suas palavras, maneiras e a sua vida -qualquer habitante da cidade o poderia dizer- é, calma e sem pretensões, a de um homem retirado do mundo, a de um simples homem de campo, que raramente faz visitas, que em muitas poucas ocasiões as recebe e que apenas se dedica à sua família e aos seus livros.

A minha primeira pergunta foi naturalmente a respeito da sua vida, sobre a qual tem aparecido, recentemente, notícias contraditórias nos jornais britânicos.
"Sim" - disse, em resposta à minha pergunta, "é verdade que a minha vista tem piorado consideravelmente nos últimos tempos, mas não tanto como algumas notícias sugerem. Porém, vejo bem com o meu olho esquerdo, mas no direito está-se a formar uma catarata e os médicos recomendam uma operação, a qual não estou decidido a submeter-me tendo em conta que seria arriscado com a minha idade. "

É claro que, perante tais circunstâncias, o seu trabalho literário é bastante afectado? - perguntei.
"Naturalmente, não posso trabalhar como dantes" -respondeu Verne-."Durante muitos anos, escrevi dois volumes por ano e neste momento tenho outro livro em preparação. No entanto, sinto que chegou o momento para um descanso. Esta última produção será a minha número cem e suponho,"-continuou ele, sorrindo "
que já, nesta altura, posso dizer que ganhei o meu direito a descansar.[1]"

Quando começou a sua carreira como autor?
"Essa é uma questão que poderia ter duas respostas"-respondeu. "Já aos doze ou catorze anos, estava sempre com uma caneta na minha mão e durante os meus dias de escola já me encontrava continuamente a escrever, trabalhando sobretudo na poesia. Durante toda a minha vida senti uma grande paixão pelas obras poéticas e dramáticas. Prova disto é que, na minha juventude, publiquei um número considerável de obras de teatro, algumas das quais tiveram um certo sucesso.
A minha segunda e principal carreira começou quando tinha mais de trinta anos e foi causado por um súbito impulso. Ocorreu-me, num certo dia, que poderia utilizar os meus conhecimentos científicos para misturar a ciência e o romance em conjunto de uma forma narrativa que iria atrair o público. A ideia tomou tanta forma dentro de mim que decidi imediatamente executa-la. O resultado foi
Cinco semanas em balão. O livro teve um sucesso assombroso, e rapidamente as suas edições se esgotaram. O meu editor consultou-me sobre a possibilidade de produzir mais volumes com o mesmo estilo. Apesar de não ter ficado satisfeito com a ideia, aceitei ao seu pedido, e o resultado foi que, desde então, no que concerne às minhas publicações, abandonei completamente a minha velha paixão por outra a qual consagrei toda a minha energia e atenção. "

É um feito afortunado para a juventude de hoje que a inspiração de um momento pode ter forçado esta troca decisiva nos escritos do senhor Verne! Que menino ou menina da presente geração teria preferido, por um momento, o verso mais glorioso às viagens extraordinárias de homens como o Capitão Nemo ou Robur e o seu incomparável Albatros?

 


 

Robur e o seu Albatros

 

O lado poético do carácter do senhor Verne é, todavia, frequentemente visível em muitas das suas descrições. Por exemplo, como ocorre na sua encantadora obra, As índias negras, onde encontramos esse quadro descritivo tão encantador da pequena Nell que, depois de ter sido retirada da prisão subterrânea onde tinha estado toda a sua vida, vê, pela primeira vez, desde as montanhas perto da mina, os esplendores do amanhecer escocês.

Com a sua habitual modéstia, Verne desaprovou totalmente a ideia de ser considerado um inventor.
"Apenas fiz sugestões"-comentou-"que, depois de uma certa consideração, deviam, segundo a minha opinião, repousar sobre uma base concreta, e que se trabalhasse sobre uma forma mais ou menos imaginária, respondesse à perspectiva que eu tinha traçado".

Mas muitas das suas sugestões que fez há mais de vinte anos, foram rejeitadas e declaradas como impossíveis, são agora feitos realidade.- insisti.
"Sim, é verdade"-respondeu Verne. "Mas estes resultados não são mais que o desenvolvimento da evolução científica, do pensamento moderno e, como tal, muitas dessas coisas têm sido previstas indubitavelmente por muitos outros além de mim. A sua chegada era inevitável, ainda que tivesse ou não antecipado, e o mais que posso dizer é que, quem sabe, olhei um pouco mais longe no futuro que a maioria das pessoas que me têm criticado."

Ao chegar a este ponto da conversa surgiu diante de nós a senhora Verne, uma encantadora dama de cabelo prateado, que desfruta, com o maior prazer os triunfos do seu marido.

Perguntei-lhe se, devido à sua ajuda, o seu esposo tinha podido elaborar algum romance.
"Oh, não"-respondeu ela, "não tomo parte alguma nas criações do meu marido, tudo o que faço é lê-las quando estão concluídas e quando finalmente estão impressas é que chego a conhecer algo delas. Suponho que terá notado" -continuou a senhora Verne- "que os personagens principais do meu marido são ingleses. Ele sente uma grande admiração pelos seus compatriotas e declarou que eles prestam-se maravilhosamente bem para as suas obras.".
"Sim” –interveio Verne-. "Os ingleses, pelo seu carácter independente e sua chama produzem personagens admiráveis, especialmente quando a natureza dos factos exige que eles se enfrentam, em cada momento, com dificuldades completamente imprevistas como o caso de Phileas Fogg."

 

J. Verne com o seu boné preto

 

Aventurei-me a recordar ao senhor Verne que a amabilidade perante a nossa nacionalidade não era ignorada neste lado do canal e que dificilmente existia um jovem britânico que não teria, pelo menos, gasto algumas horas de deleite na companhia de uma ou outra das suas incríveis aventuras.
"Estou orgulhoso de saber que assim é"-respondeu Verne. "Nada me dá mais prazer que saber que os meus livros têm sido meios de proporcionar interesse e instrução - já que sempre tentei que, de certo modo, sejam educativos- aos jovens, que, de outra forma, nunca poderia alcançar.
Durante o meu actual infortúnio tenho recebido inúmeros telegramas e mensagens simpáticas provenientes dos meus leitores ingleses, e há pouco tempo tive o prazer de receber uma bonita bengala de um dos meus jovens amigos dessa nação.
"

Já visitou com certeza a Inglaterra?
Sim, há muitos anos, quando era relativamente um homem jovem. Fiz a viagem por mar até Southampton[2] no meu iate e depois de visitar Londres e a maior parte dos seus monumentos, fui a Brighton[3], um lugar encantador, com as suas represas e magníficos passeios. Todavia, a cidade que melhor conheço de Inglaterra é Liverpool[4], ali estive durante algum tempo com alguns amigos e tive a oportunidade de a explorar, sobretudo as suas docas e o Mersey[5], tendo tentado reproduzir este ultimo em
Uma cidade flutuante.

Já fez alguma visita à Escócia ou Irlanda?
Sim, fiz uma viagem muito agradável à Escócia e entre outras excursões visitei Fingal’s Cave e a ilha de Staffa. Esta imensa caverna, com as suas sombras misteriosas, as suas câmaras escuras com os seus tectos cobertos de erva e os seus maravilhosos pilares basálticos impressionaram-me, e isso foi a origem do meu livro O..., O...” Verne fez uma pausa. “Realmente esqueci-me do nome” —disse—. “Lembras-te?” — perguntou dirigindo-se à sua esposa.
Não é
O raio verde?” — sugeriu a senhora Verne.
Oh sim, é esse, claro,
O raio verde. Deve me perdoar” —adicionou rindo-se— “se entre tantos títulos, me esqueço de algum deles num determinado momento."

Muitos dos livros de Verne devem a sua origem à inspiração de um momento.
Além de
Cinco semanas em balão e O raio verde, a obra Uma cidade flutuante, foi completamente idealizada quando o autor viajava até à América no transatlântico Great Eastern. A ideia da A volta ao mundo em oitenta dias, quiçá a mais célebre de todas as suas obras, deve-se a um anúncio turístico visto por casualidade nas páginas de um jornal.

Perguntei a Verne qual dos seus livros era o seu favorito.
Essa pergunta é me feita várias vezes” —respondeu. “Na minha opinião, um escritor, é igual a um pai, nunca deve ter um filho favorito. Todos os seus trabalhos devem ter o mesmo valor perante seus olhos, visto que são o produto do melhor de seus esforços e, apesar de naturalmente produzidos sob diferentes condições de humor e temperamento, cada um deles representa o ponto extremo do seu pensamento e energia no momento da sua criação”.
E” —continuou— “quando não tenho nenhuma preferência, isto não quer dizer que os meus leitores não devam ter uma. Indubitavelmente você, por exemplo, pode dizer-me qual é de todas a que mais lhe agrada.
Respondi que
Vinte mil léguas submarinas é a que mais me fascina, apesar de Miguel Strogoff, que tem sido teatralizada e que está em cena agora no Teatro Châtelet em Paris, também ser uma das minhas favoritas.
Verne mostrou-se interessado ao saber que tinha estado no teatro na noite anterior e, levantando-se da sua cadeira, perguntou-me com vivacidade.
Diga-me, foi bem representada?” —disse—, “foi bem recebida?
Assegurei-lhe que sim. De facto, o imenso palco do Teatro Châtelet permite a representação da obra numa grande escala e num certo momento havia mais de trezentos actores em cena, muitos deles montados sobre cavalos.

 


 

Cartaz da peça Michel Strogoff
 

"Desde há uns anos para cá, raramente visito Paris"-disse Verne-, "apesar de haver um palco que ainda visito frequentemente. Estou feliz em Amiens, a sua atmosfera tranquila é para mim admirável. Perdi toda a vontade de viajar para fora da cidade para ver coisas novas. Estamos nesta casa há mais de vinte anos, e é aqui onde escrevo a maioria dos meus livros. Alguns anos atrás, tínhamos mudado para outra residência localizada na esquina da Rue Charles Dubois, mas era demasiado grande para as nossas necessidades, de forma que regressamos aqui".

Penso que quando está a escrever as suas ideias no fluem a não ser que esteja completamente só.
Pelo contrario” —interveio a senhora Verne—, “essa não é uma dificuldade para o meu marido. Não se tomam precauções especiais nesse sentido. Trabalha calmamente em cima no segundo piso e os ruídos não parecem perturba-lo nem um pouco e as minhas filhas e eu podemos fazer o que queremos sem termos medo de protestos da sua parte.

E qual é o seu método de trabalho, senhor? —perguntei.
"O meu método de trabalho? Pois bem, até há uns meses atrás, invariavelmente levantava-me às cinco, e escrevia durante três horas antes do pequeno-almoço. O grande volume de meu trabalho sempre se fez a estas horas e, apesar de por vezes, quando já o dia estava avançado, me voltar a sentar durante algumas horas, quase todas as minhas histórias foram escritas quando a maior parte das pessoas dormia.
Eu tenho sido sempre um leitor obstinado, especialmente de jornais e revistas e é meu costume recortar e preservar para referência futura qualquer parágrafo ou artigo que me interesse. É assim que acumulo as minhas ideias e ao mesmo tempo me mantenho completamente actualizado a respeito das matérias do domínio científico. A tarefa é difícil, é certo, mas o resultado recompensa o esforço e se o artigo for cuidadosamente classificado nunca será um problema encontrar alguns destes textos, ainda mesmo depois de decorridos vários anos.
"
Surpreenderá muitos leitores o facto de que este é o método adoptado por Charles Reade, o qual tem defendido vigorosamente, sendo o único meio satisfatório para que um escritor possa enfrentar esse caleidoscópio de eventos sempre novos.

E lê, entre outros, os trabalhos de muitos escritores ingleses?
Tenho lido uma grande quantidade deles, mais os trabalhos dos seus escritores mais conhecidos, incluindo a dos poetas, mas apenas por meio de traduções. Tenho a impressão que perdi uma boa oportunidade de ter aprendido o idioma inglês, mas deixei passar o tempo e agora é demasiado tarde para começar.

Qual é o seu autor favorito?
Vivo ou morto?”

Bem, digamos morto.
Apenas há una resposta a essa pergunta” —disse Verne com entusiasmo—. “Para mim as obras de Charles Dickens são únicas no seu género, eclipsando a todos os outros pela sua incrível força e justeza de expressão. Que humor e que deliciosos sentimentos podem ser encontrados nas suas páginas! De que forma parecem viver os personagens das suas obras e como um sabe entender os seus propósitos! Li e reli as suas obras mestras, assim como a minha esposa. David Copperfield, Martin Chuzzlewit, Nicholas Nickleby, A velha tenda de curiosidades. Nós lemo-las todas, não é assim?
Ah, sim!” —respondeu a senhora Verne—. "Têm uma força verdadeira."
É algo agradável ouvir um autor a falar com palavras de tal admiração incondicional a respeito a outro, especialmente quando, como neste caso, estão separados, não apenas por diferentes tipos de estilo, como também pela barreira da nacionalidade.

E entre os escritores vivos, quem prefere? —perguntei.
Essa é uma pergunta mais difícil” —disse Verne reflexivamente—, “e devo reflectir antes de responder... Penso que posso decidir” —disse, depois de um minuto.
"Há um autor cujo trabalho me atraiu muito fortemente tendo em conta a sua posição imaginativa e tenho acompanhado com grande interesse os seus livros. Refiro-me ao senhor Herbert George Wells. Alguns dos meus amigos têm-me dito que o seu trabalho é muito semelhante ao meu, mas penso que estão errados.
Considero-o um escritor puramente imaginativo, digno dos grandes elogios, mas os nossos métodos são completamente diferentes. Nas minhas obras sempre tentei de apoiar as minhas invenções baseadas em factos reais e utilizar, para a sua realização, métodos e materiais que não ultrapassem os limites do saber fazer e dos conhecimentos técnicos contemporâneos
.
Tome por exemplo o caso do Nautilus. Bem pensado, possui um mecanismo de submersão que não tem nada de extraordinário e que não passa para além dos limites do conhecimento científico actual. Flutua ou submerge segundo procedimentos inteiramente viáveis e conhecidos, os sistemas de controlo e de propulsão são perfeitamente racionais e compreensíveis. A sua força motriz nem sequer é um segredo. O único novo aspecto sobre o qual eu vim pedir a ajuda da imaginação reside na aplicação prática desta força motriz, e aqui deixei intencionalmente um espaço em branco para que o leitor faça as suas próprias conclusões, um mero hiato técnico, por assim dizer, que uma mente prática e de alto nível é muito capaz de preencher.
Por outro lado, as criações do senhor Wells, pertencem a uma época e grau de conhecimento científico bastante distante do presente, para não dizer completamente além dos limites do possível. Não só elabora os seus sistemas a partir do domínio da imaginação, como também os elementos que servirão para as construir.
Por exemplo, na sua obra
Os primeiros homens na Lua lembram-se que introduz uma substância anti-gravitacional completamente nova, da qual não conhecemos a mínima pista sobre o seu método de preparação ou real composição química? Tampouco faz referência ao conhecimento científico actual que nos permita, por um momento, imaginar um método pelo qual se possa alcançar um resultado semelhante.
Na
A Guerra dos Mundos, uma obra pela qual sinto uma grande admiração, deixa-nos novamente às escuras no que respeita à natureza real dos marcianos, ou à forma em que fabricam o maravilhoso raio térmico com o qual provocam grande estrago entre os seus opositores. "

"Que se tenha em conta"-continuou Verne- "que ao dizer isto não estou a questionar, de forma alguma, os métodos do senhor Wells; pelo contrário, tenho um grande respeito pelo seu génio imaginativo. Apenas estou a expor os contrastes que existem entre os nossos dois estilos, e estou a apontar as diferenças fundamentais que existem entre eles e desejo que se entenda claramente que não expresso nenhuma opinião sobre a superioridade de um sobre o outro. Mas agora"-acrescentou levantando-se da sua cadeira, "temo que estou a começar a cansá-lo. Os minutos passam muito rapidamente a conversar, e como vê, estamos a falar à mais de uma hora."

Assegurei ao senhor Verne que precisaria de muitas horas antes que alguém se pudesse aborrecer estando na sua presença, mas não querendo abusar mais do seu tempo, e contra a minha vontade pus fim a esta visita.

Com uma cortesia encantadora e um pouco antiquada, Verne e sua esposa insistiram em acompanhar-me à entrada, e uma vez fora, ao vislumbrar o pôr-do-sol, a minha última recordação do famoso autor foi a de uma agradável silhueta de cabelo branco -de pé na porta da sala-, cujo alegre "Até logo" me chegou desde o outro lado da pavimentada rua, que ainda ouvia agradavelmente nos meus ouvidos nos muitos quilómetros que separavam a cidade de Amiens do expresso de Dieppe.


 

ANEXO


1• É curioso que Verne mencione aqui o seu volume número cem, porque anteriormente o próprio escritor evoca que está a escrever o 101 (entrevista de 1903 com Sherard e carta a Mario Turiello, de 24 de Novembro de 1902) e o 102 (num artigo na revista Popular Mechanics).
2• Cidade de Inglaterra situada na costa do canal da Mancha. Grande porto comercial. (N do T)
3• Cidade de Inglaterra, situada no condado de Sussex. (N do T)
4• Cidade de Inglaterra, situada no condado de Lancaster, na costa ocidental da Grande Bretanha, na margem do estuário do rio Mersey. (N do T)
5• Rio situado no noroeste de Inglaterra. (N do T) em 1904). Existe aqui um novo erro? Ou Verne pensa que as novelas listadas anteriormente não as são mais? Isso explica a presença, sobre a sua secretária, depois da sua morte, de
A caça ao meteoro, que foi contabilizada desde 1901 e que o autor desejava reescrever.

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