Pierre-Jules Hetzel (1814-1886)

Hetzel, o editor de visão que também era um bom amigo
E se
Júlio Verne, cansado de ser recusado pelos editores parisienses, não tivesse
proposto "Cinco Semanas em Balão" em 1862 ao editor Pierre-Jules Hetzel, e
tivesse metido o manuscrito na gaveta? Será que Verne teria arrumado a pena e o
tinteiro e se teria dedicado apenas a ganhar dinheiro na Bolsa? Nunca o
saberemos.
Verne apareceu a Hetzel - então um dos maiores editores de Paris localizado na
Calle Jacob, Nº18 - na altura
certa, quando este tinha acabado de criar a secção científica da sua Biblioteca
Juvenil e precisava de material de qualidade. Entusiasmado pela
"Voyage em l’air", o editor Pierre-Jules Hetzel - mais tarde, amigo e
conselheiro – aceitou publicá-lo com a condição que o título fosse substituído por
"Cinq semaines en ballon"
(Cinco semanas em balão)
. Editado em 1863,
"Cinco Semanas
em Balão" marcou o início da série "Viagens Extraordinárias", e de uma
colaboração que durou até à morte do autor. Em 23 de Outubro de 1862, ambos assinaram
um contrato pelo qual o talentoso estreante se comprometia a "entregar ao Sr. Hetzel um mínimo de dois volumes por ano". A venda desse
primeiro romance de um escritor ainda desconhecido teve uma tiragem inicial de 2.000 exemplares. Durante a vida do autor foram vendidos cerca de 76
mil exemplares .
Assim surgiu o romance científico, e mesmo o geográfico, que comportava também de maneira discreta uma sátira social. Na realidade, essa obra correspondia ao estado de espírito que dominava Júlio Verne, nesta época, ou seja, desejo que aspirava se tornar um novo Balzac. Fundamentando-se para alcançar este objectivo descrever a sociedade moderna pela audácia e crueldade das suas imagens.

Poster publicitário da Editora Hetzel de 1890
Hetzel era um homem de superior bom gosto, juízo estético, visão comercial e
filosofia didáctica, e partilhava com Júlio Verne a crença optimista no
progresso científico. Cedo a lucrativa relação comercial entre os dois homens se
transformou em sólida amizade.
O autor de "Viagem ao Centro da Terra" e o seu editor trocavam
correspondência abundantíssima, quase diária, tornando-se Hetzel também em
conselheiro literário (e, segundo alguns, até em co-autor ocasional) do seu
amigo e contratado, ao ponto de o ter desaconselhado a levar à estampa
"Paris
no Século XX"."Encaro como um desastre para o seu nome a publicação deste seu
trabalho", escreveu-lhe. Verne tinha-o em tal conta que se lhe referia nas
cartas como "meu venerável mestre". Esse romance sobre Paris, escrito entre 1860 e 1862, permaneceu na gaveta durante 150 anos.
Trata-se de uma sátira da sociedade do segundo império numa visão de
antecipação. Alguns elementos desse romance foram aproveitados em
"Une
ville
idéale" (1875),
"O dia de um
Jornalista Americano no ano de 2889" (1889) e
"Ilha de Hélice"
(1895). No entanto, essa recusa não significou que outras viagens extraordinárias
não fossem escritas:
"Viagem ao Centro da Terra"
(1864),
"Da Terra à Lua"
(1864-65) e "Os filhos do Cap. Grant"
(1864-65).
Depois do sucesso desses romances, Júlio Verne assinou com Hetzel um segundo contrato em 11 de Dezembro de 1865, em que se comprometia a fornecer três
volumes por ano de obras que tivessem as mesmas características das editadas anteriormente para o mesmo público e com a mesma extensão. Mais tarde, em
1871, um novo contrato reduz a quantidade de três a dois volumes por ano. Verne aceitou o novo contrato, pois como dizia em carta de Abril de 1864 ao
seu editor: “quero me tornar antes de tudo, um escritor”.
Na realidade, essa colaboração com Hetzel permaneceu até 1886, quando o seu filho tomou a sucessão e continuou a publicar as Viagens Extraordinárias,
que representam um total de 62 títulos reunidos em 47 volumes. Na editora de Hetzel, Jules Verne não foi só um autor fértil, mas também o co-director
do Magasin d’éducation et de récréation (Revista da Educação e da Recreação), periódico fundado por Hetzel e Jean Mace.
A intenção era reatar com a tradição didáctica do século XVIII. De facto, essa publicação bimensal alternando pequenos trechos de ficção, contos,
lições morais e artigos de divulgação científica, tinha como objectivo subliminar propor as famílias um periódico moderno e bem ilustrado no qual
predominava “um ensino sério e atraente ao mesmo tempo que agradava aos pais com o proveito das crianças.”
O primeiro número do Magasin d’éducation et de récréation, de 20 de Março de 1864, publicou o primeiro episódio do
"Viagens e aventuras do
Capitão Hatteras",
de J. Verne, cujo nome aparece
entre os redactores da revista na parte Educação dirigida por Jean Mace. No entanto, foi necessário esperar até 1867 para que o objectivo educativo da
obra verniana fosse nitidamente formulado, quando foi criada a colecção Voyage extraordinaires na qual foram reeditados, sob o formato maior,
com ilustrações e com modificações no texto, os primeiros romances:
"Cinco Semanas
em Balão",
Viagem ao Centro da Terra" e
"Viagens e aventuras do Capitão Hatteras". Este último foi precedido de uma
advertência do editor que vai constituir o verdadeiro programa a ser adoptado pelo autor.
Esta apresentação-advertência escrita por Verne e retocada pelo editor apresentava dois pontos de vista aparentemente divergentes. O primeiro
correspondia indubitavelmente à intenção de Hetzel de “resumir todos os conhecimentos recolhidos pela ciência moderna”. Tratava sem dúvida de educar
sobre uma forma atraente e pitoresca. O outro ponto de vista de origem verniana estava associado às ideias de Flaubert, Zola e Hugo sobre abertura da
literatura a sua época, opondo-se às teorias românticas: “é necessário dizer que a arte pela arte não é mais suficiente em nossa época e que é chegada
hora onde a ciência tem a sua posição feita na literatura”.
Na verdade, o projecto de Júlio Verne constituía um verdadeiro desafio para um romancista. Como reunir os conhecimentos científicos numa perspectiva
didáctica e ao mesmo tempo em que se criava uma ficção? Como se engajar num empreendimento enciclopédico quando não se tem uma formação científica.
Júlio Verne conseguiu, como ninguém jamais o fez até hoje, em todos os seus romances que se seguiram, sem nenhuma crise de inspiração, elaborar
romances científicos e geográficos que, além de apresentar uma maturidade e uma coerência, constitui admirável exemplo de criação literária.
Hoje, as cuidadas edições da obra de Júlio Verne com o selo do perfeccionista
Hetzel são preciosidades bibliográficas.
"O que tantas vezes se promete mas tão raramente se cumpre, a instrução que diverte, a diversão que instrui, o Sr. Verne cumpre-o em cada uma das páginas das suas comoventes narrativas. Quando vemos o público apressado acorrer às conferencias que entretanto abriram em mil lugares da França, quando se percebe que ao lado dos críticos de arte e de teatro foi preciso dar lugar nos nossos jornais aos relatos saídos da Academia das Ciências, temos razão em dizer que a arte pela arte já não basta à nossa época, que chegou a hora em que a ciência terá o seu devido lugar no domínio da literatura." Pierre-Jules Hetzel


As ilustrações da 'Colección Hetzel'
As edições ilustradas estiveram a cargo dum grupo de desenhadores da época, sendo os mais conhecidos Léon Benett, George Roux, Jules Ferat e Edouard Riou. Com as capas realizadas por estes artistas para a "Colección Hetzel", inicia-se a nova aventura de publicar os desenhos (disponíveis no Blog JVernePt) das mais conhecidas obras vernianas.
As capas apresentadas foram extraídas do portal francês de Jean Alain Marquis.
Todos os seus direitos reservados.
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